quarta-feira, 25 fevereiro , 2026

Crônica de um coração contador

Venho de uma família de contadores de causos. Daqueles que, ao redor do fogão a lenha ou sob a luz tímida das velas quando faltava a energia, costuram memórias com palavras e silêncios bem colocados.

Meu avô, Hercílio, era o mestre das histórias. Mamãe contava — com os olhos brilhando como quem ainda via o cenário — que era uma verdadeira missão colocar os onze filhos na carroça, só para passear sob a luz das estrelas. Era ali, em Morro Grande, no vaivém do caminho e no sussurro da noite, que ele começava a narrar seus contos.

Segundo ela, aquele era o melhor horário para ouvir histórias. Talvez por isso, suas lembranças mais vívidas, mesmo depois dos oitenta anos, eram sempre das noites de verão embaladas pela voz do pai.

Mamãe, curiosamente, não herdou o talento de contar histórias. Nem eu. Mas fui atrás. Descobri técnicas, fiz cursos de contação, aulas de teatro, e mergulhei nesse universo que me chamava como um eco antigo. Aprendi, aos poucos, a encantar meus filhos — Caio e Marina — e todas as crianças que frequentavam nossa casa.

Nosso lar virou palco: floresciam brincadeiras, músicas, danças… tudo embalado por narrativas dos mais diversos gêneros.

Lembro com carinho — e um certo aperto no bolso — do dia em que comprei um livro caríssimo para meu orçamento na época: 365 Fábulas Para Contar. Achei que valia o investimento. E valeu. Nossa pequena biblioteca foi crescendo, tijolinho por tijolinho, conforme tentávamos entender o que mais dava prazer às crianças — na infância e depois, na adolescência.

Mas engana-se quem pensa que contar histórias é só diversão. As histórias ensinam. Alimentam. Despertam mundos. Quando uma criança escuta uma narrativa, ela se vê viajando em outras realidades, conhecendo outros tempos, outras formas de ser. Desenvolve o raciocínio, o pensamento crítico, a noção de espaço, de tempo… E tudo isso sem perceber.

A leitura e a escrita, aliás, andam de mãos dadas. Quando a escuta é cultivada com carinho, o processo de escrever flui mais naturalmente.

E tem mais: a criatividade progride, prospera. Ao ouvir uma história, a criança é livre para imaginar como quiser. Não há certo ou errado — há liberdade.

Contar histórias também estreita laços. É um momento de presença, de escuta verdadeira, de troca de sentimentos. Eu vivi isso na pele. E foi essa vivência que me acompanhou quando cheguei à universidade. Lá, comecei a provocar meus alunos: “Qual é a sua história?” — e o que brotava eram relatos potentes, cheios de sonhos e de verdades. Algumas delas, ainda estão no meu coração.

Contar histórias não é moda. É ancestral. Desde os tempos das fogueiras, nossos antepassados usaram narrativas para transmitir saberes, explicar o mundo, criar vínculos. Hoje, com tanta tecnologia e métodos novos, o storytelling (como agora muitos chamam) ainda se mostra uma das formas mais eficazes de ensinar e de tocar o outro.

Mas — e aqui chego ao ponto — ensinar e engajar não são tudo. Durante esses anos de contações, reservei tempo para escutar. Escutar de verdade as crianças, principalmente as menores, que têm uma vontade quase desesperada de serem ouvidas. E é aí que mora a mágica.

Outro dia ainda quero escrever sobre a beleza que é contar histórias para bebês — porque, olha, é uma coisa de deixar os cabelos arrepiados. Mas hoje, quero compartilhar um novo projeto que está nascendo justamente por eu estar atenta a essas pequenas grandes histórias que me são contadas.

Tudo começou quando, em uma feira de livros de um colégio, uma criança chegou atrasada. As escritoras já haviam ido embora, e eu não tinha o livro que ela tanto queria. Ela chorava, frustrada. Sentei com ela e o pai, tentando acalmar aquela dor. Por sorte, um dos meus livros e alguns adesivos conseguiram acalmar seu coração. Fui embora com a dor dela apertando o meu coração — imaginando a expectativa que ela havia criado para aquele momento.

Algum tempo depois, outro episódio me marcou. Um aluno do terceiro ano de uma escola no interior me questionou, com toda seriedade, por que meu novo projeto não incluía dinossauros. Ele fez uma defesa tão apaixonada que, no fim, levei a ideia à minha ilustradora — e mudamos todo o projeto que estava em fase de impressão. O projeto tomou outro rumo, e que bom que foi assim.

Ouvir as crianças, colocar-se no mesmo nível que elas, acredite, isso transforma tudo.

Esse novo livro-caderno que está nascendo foi feito por muitas mãozinhas que se erguiam no ar, ávidas por contribuir. Foi um processo cheio de fantasia, imaginação e construção conjunta. E eu estou esperançosa — com o coração cheio — de que os espaços criados nessas páginas se tornem um diário de histórias novas e eternas. Daquelas que, como as do meu vô Hercílio, ficam cravadas no peito da gente.

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