terça-feira, 3 março , 2026

O que podemos aprender com a demissão do Filipe Luís?

Bom dia, boa tarde, boa noite.

Depende de que horas você está lendo isso.

Eu escrevo com um nó na garganta. Não é personagem. Não é exagero literário. É aquele incômodo que aperta o peito e acompanha o dia inteiro.

Porque, às vezes, não é uma derrota que dói. É a forma como se decide o rumo das coisas.

E ontem, o que aconteceu foi maior do que futebol.

Primeiro, o desabafo. Porque eu preciso.

Eu sou flamenguista. Tenho orgulho disso. E é exatamente por isso que hoje eu estou com vergonha.

Filipe Luís foi demitido em 3 de março de 2026. Horas depois de uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira. Ele deu coletiva. Projetou a final do Carioca. Falou das críticas com serenidade, maturidade e responsabilidade.

Minutos depois, saiu a nota oficial.

Ele estava demitido.

Não foi sobre “ninguém é maior que o clube”.

Foi sobre uma diretoria que confundiu pressão com planejamento.

Filipe não fez política de vestiário. Não blindou medalhão. Não construiu panelinha. Não terceirizou culpa. Cobrou de quem precisava cobrar. Sustentou decisões impopulares. E quando o time oscilou, chamou a responsabilidade para si.

Isso é liderança de verdade. Da rara.

E o clube virou as costas de forma fria, rápida e protocolar. Sem despedida proporcional ao que foi construído.

Eu estou triste. E estou revoltada.

E sim, estou tomando as dores dele.

Agora, os fatos. Porque emoção sem dado vira só grito.

O que aconteceu

O pano de fundo da demissão foi um início de temporada com dois vice campeonatos:

  • Supercopa do Brasil 2026, vice para o Corinthians
  • Recopa Sul Americana 2026, vice para o Lanús, com derrota no Maracanã

Dois resultados que frustraram a expectativa de invencibilidade.

A torcida pressionou. A narrativa cresceu. A diretoria reagiu.

Mesmo com um 8 a 0 acontecendo na mesma noite da decisão.

Isso não é planejamento estratégico.

Isso é reação institucional sob ruído.

O que ele construiu. Com números.

Filipe Luís deixou o Flamengo com:

  • 101 jogos
  • 63 vitórias
  • 23 empates
  • 15 derrotas
  • 69,9 por cento de aproveitamento

Entre os treinadores com mais de 100 jogos na história recente do clube, está entre os maiores aproveitamentos da era moderna.

Cinco títulos em dezoito meses.

Competição Ano Resultado
Copa do Brasil2024Campeão
Campeonato Carioca2025Campeão
Supercopa do Brasil2025Campeão
Copa Libertadores2025Campeão
Campeonato Brasileiro2025Campeão
Copa Intercontinental FIFA2025Vice, 1 a 1 com PSG, derrota nos pênaltis após 120 minutos de muita luta de igual para igual
Supercopa do Brasil2026Vice
Recopa Sul Americana2026Vice

Ele não caiu por colapso estatístico.

Ele caiu em meio a pressão.

Dorival e Jorge Jesus também tiveram ciclos consistentes. Mas o diferencial de Filipe foi sustentar alto nível dentro de um ambiente historicamente instável, com sequência de títulos e tempo de permanência acima da média recente do clube.

O padrão do Flamengo desde 2019

Após a saída de Jorge Jesus, o Flamengo viveu alta rotatividade.

A média de permanência dos treinadores desde 2020 gira em torno de seis meses.

Filipe ficou dezoito meses. Quase três vezes mais.

TreinadorJogosAproveitamentoTítulos
Jorge Jesus5782%3
Filipe Luís10169,9%5
Renato Gaúcho3772%0
Dorival Júnior4367%2
Tite6866%1
Rogério Ceni4662%2
Paulo Sousa3265%0
Sampaoli3960%0
Domènec Torrent2364%0
Vitor Pereira2053%0

Conclusão objetiva: não houve desastre técnico que justificasse ruptura imediata.

A decisão foi contextual. Política. Pressionada. ERRADA.

O Brasil e a cultura da demissão

O futebol brasileiro tem uma das menores médias de permanência de treinadores no mundo.

A Série A gira em torno de quatro a seis meses de duração média no cargo.

Na Premier League, a média ultrapassa dois anos.

Na Espanha e França, gira entre dezesseis e dezoito meses.

O Brasil normalizou a demissão como resposta emocional.

Trocar técnico virou ferramenta simbólica para mostrar ação. Mesmo quando o problema não é técnico.

Uma visão além do futebol

Antes que alguém diga que isso é só dor de torcedor, eu quero trazer uma leitura que vem de fora do campo.

Theo Orosco é empresário, investidor e uma das vozes mais lúcidas quando o assunto é gestão, cultura organizacional e liderança em ambientes de alta pressão. Ele não fala de futebol. Ele fala de negócios. De empresas que crescem. De empresas que quebram. De líderes que constroem e de líderes que são descartados.

E foi justamente por isso que o que ele disse sobre o caso Filipe Luís me chamou a atenção.

Nos stories, Theo fez três observações que extrapolam completamente o universo do esporte.

Primeiro, ele disse que muitas vezes competência não é suficiente. É preciso lidar com narrativa e percepção. Você pode ser capaz, pode entregar resultado, pode ter números sólidos, mas se a percepção pública não estiver alinhada, o ambiente começa a corroer o projeto.

Isso é brutalmente verdadeiro. E não é sobre Flamengo. É sobre sociedade.

Vivemos num tempo em que não basta ser. É preciso parecer. Não basta entregar. É preciso performar emoção, discurso e gesto para agradar plateia.

Segundo ponto: demitir um líder respeitado pelo grupo gera efeitos colaterais profundos. Não é só troca de comando. É quebra de confiança. É ruído interno. É mensagem subliminar de que estabilidade não existe. E quando estabilidade não existe, ninguém se compromete de verdade com o longo prazo.

Terceiro, e talvez mais importante: se a questão era alinhamento estratégico, isso deveria ter sido tratado antes, com transparência. Não se espera a primeira turbulência para impor decisão. Gestão madura resolve divergência antes da crise. Gestão pressionada resolve durante o barulho.

E aqui entra o ponto que mais me incomoda.

Isso não é um problema do Flamengo. É um problema nosso.

A sociedade criou uma régua impossível. A régua do erro zero. A régua do desempenho contínuo. A régua do 100 por cento de aproveitamento.

E nem máquina opera com 100 por cento de eficiência permanente. Nem algoritmo acerta tudo. Nem inteligência artificial é perfeita.

Mas a gente exige isso de humanos.

Exige de técnico.

Exige de líder.

Exige de gestor.

Exige de jogador.

Exige de si mesmo.

Quando alguém entrega cinco títulos, quase 70 por cento de aproveitamento, disciplina interna, cultura instaurada e ainda assim cai na primeira sequência de ruído, o recado é claro:

Não é sobre resultado. É sobre tolerância ao erro.

E nós não temos mais.

O caso Filipe Luís é só o reflexo esportivo de uma doença maior. A incapacidade de sustentar processo quando ele não é perfeito.

Gestão madura resolve divergência antes da crise.

Gestão pressionada resolve durante o barulho.

A história mostra que isso não é novo

Se parece exagero dizer que política sempre encontra um jeito de entrar em campo, basta olhar para trás com um pouco de honestidade.

O futebol é feito de memória afetiva, mas também é feito de decisões frias. E, quase sempre, quando interesses institucionais entram em conflito com símbolos, o símbolo perde.

Flamengo e Zico

Em 1983, Zico foi negociado para a Udinese. Oficialmente, foi uma transferência. Na prática, foi o encontro entre necessidade financeira, contexto político e desgaste interno. O maior ídolo da história do clube não ficou imune à lógica institucional. O Flamengo precisava reorganizar suas contas e suas estruturas, e o maior nome da sua história virou peça de ajuste.

Santos e Pelé

Pelé encerrou seu ciclo principal no Santos em 1974, depois de mais de uma década carregando o clube ao topo do mundo. O Santos viveu um período glorioso com ele, mas nunca conseguiu estruturar um modelo que sustentasse aquela hegemonia depois da sua saída. Nem o maior jogador da história conseguiu garantir estabilidade estrutural eterna.

Real Madrid e Iker Casillas

Iker Casillas foi capitão, multicampeão, símbolo de uma geração histórica do Real Madrid. Mesmo assim, saiu em 2015 após desgaste público e conflito interno. A despedida foi fria, protocolar, cercada de tensão. A instituição escolheu seguir outro caminho, mesmo que isso significasse romper com um dos maiores ícones de sua história recente.

Cruzeiro e Alex

Alex foi protagonista de um dos ciclos mais brilhantes do Cruzeiro no início dos anos 2000. Tinha identificação, liderança e respeito absoluto da torcida. Ainda assim, saiu por lógica de mercado e reconfiguração interna. Não houve ruptura dramática, mas houve a confirmação do mesmo princípio: história não garante permanência quando o contexto muda.

O padrão se repete em décadas, países e culturas diferentes.

Quando interesses institucionais, pressões políticas ou necessidades estratégicas entram na equação, o ídolo deixa de ser intocável e passa a ser variável.

E é isso que dói.

Porque enquanto torcedor acredita em lealdade a instituição acredita em sobrevivência.

Quando essas duas lógicas colidem, quase sempre quem perde é quem construiu identidade.

A demissão de Filipe Luís não inaugura um capítulo novo. Ela apenas confirma um roteiro antigo: no futebol, quando política entra em campo, nem quem fez história está protegido.

E talvez seja exatamente isso que a gente precise encarar com maturidade.

O futebol sempre foi paixão.Mas sempre foi poder também.

 

Então, o que podemos aprender com a demissão do Filipe Luís?

Aprendemos, antes de qualquer coisa, que no futebol a palavra lealdade é frágil. Ela existe na arquibancada, existe no discurso, existe na camisa que a gente veste. Mas institucionalmente, ela tem prazo. Nem de jogador para clube, nem de técnico para diretoria, nem de diretoria para técnico. No fim, todo mundo é substituível quando o barulho aperta.

Aprendemos que o mundo está com a régua errada.

Hoje se exige 100 por cento de aproveitamento como se fosse possível. Se exige perfeição como se liderança fosse algoritmo. Se exige vitória constante como se processo não tivesse oscilação. E quando alguém que entrega quase tudo não entrega tudo o tempo inteiro, vira alvo.

Filipe ganhou tudo no ano passado. Construiu cultura. Conquistou títulos. Sustentou o Flamengo em alto nível. Levou o time a disputar 120 minutos contra o PSG de igual para igual. Fez o Flamengo competir com dignidade internacional.

E ainda assim não foi suficiente.

Isso não é sobre desempenho.Isso é sobre expectativa irreal.

Aprendemos também que a ansiedade da torcida, quando encontra uma gestão frágil, vira gasolina. E gestão reativa toma decisões para apagar incêndio, não para sustentar projeto.

E o resultado é sempre o mesmo: a gente troca o líder e mantém o problema.

Mas, acima de tudo, aprendemos algo mais dolorido.

Foi uma traição.

Traição com um cara que deu sangue e alma pelo Flamengo. Que voltou para o clube por paixão, não por necessidade. Que poderia ter escolhido outro caminho, mas escolheu assumir responsabilidade num dos ambientes mais pressionados do futebol brasileiro.

Ele sempre disse que ninguém é maior que o clube. Nem artilheiro, nem técnico.

E ele estava certo.

Mas isso não significa que o clube pode agir como se história, entrega e caráter não valessem nada.

Ele não merecia isso. Pela trajetória. Pela entrega. Pelo respeito que construiu internamente. Pelo histórico que apresentou.

Aprendemos que você pode fazer quase tudo certo e ainda assim ser descartado quando o ambiente está doente. E não apenas no futebol.

Que o futebol brasileiro ainda confunde liderança com espetáculo.

Que exigimos de humanos o que nem máquina consegue entregar.

E talvez a lição mais amarga seja essa:

Às vezes não é sobre o que você faz. É sobre o contexto em que você está. Já viu sobre o Endrick?

Eu estou frustrada como flamenguista.

Eu gostaria de pedir desculpa a ele, em nome de uma parte da torcida que entende o que é processo, que entende o que é liderança, que entende que ninguém constrói nada grande sem atravessar momentos de oscilação.

Porque o que fizeram não parece decisão estratégica. Parece medo.

E quando o medo manda mais do que a convicção, o preço chega.

Nem sempre no placar.Mas chega.

E eu temo que o Flamengo ainda vá pagar por isso.

Não por demitir um técnico, mas por mostrar que nem quem entrega títulos, respeito e identidade tem respaldo quando a pressão aumenta.

Isso dói.

E não é pouca coisa.

E talvez a lição mais dura:

Você pode fazer quase tudo certo e ainda assim ser descartado se o ambiente não estiver preparado para sustentar processo.

Filipe tinha títulos.

Tinha números.

Tinha respeito interno.

Tinha cultura instaurada.

E não foi suficiente.

Então a pergunta deixa de ser esportiva.

Se isso não basta, o que basta?

Talvez a resposta seja incômoda. Às vezes não é sobre competência. É sobre política, timing e pressão.

O problema não parece técnico.Parece estrutural.

E estrutura não se corrige trocando treinador na mesma noite de um 8 a 0.

Hoje eu escrevo triste. Mas mais do que triste, preocupada.

Porque enquanto o medo de perder for maior do que a coragem de construir, nenhum projeto vai sobreviver.

E isso não é só sobre futebol.

É sobre quem nós estamos nos tornando.

 

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