FOTO Ricardo Stuckert PR Divulgação Notisul
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O desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval de 2026 extrapolou os limites da avenida e ganhou dimensão nacional ao unir homenagem política, críticas diretas a adversários e forte repercussão nas redes sociais. O enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” tornou-se um dos momentos mais comentados da festa e reacendeu a polarização em ano eleitoral.
A combinação entre narrativa biográfica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ataques a setores da oposição colocou o desfile no centro do debate público. A apuração, que terminou com o rebaixamento da escola, intensificou ainda mais as discussões.
Entre homenagem e confronto
O enredo foi dividido em dois eixos principais.
De um lado, apresentou a trajetória de Lula, da infância no sertão pernambucano à Presidência da República, com foco na superação pessoal, no sindicalismo e nas políticas sociais.
De outro, trouxe alas e alegorias com críticas diretas ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a segmentos tradicionais e conservadores. Representações caricatas, sátiras e agressões veladas foram interpretadas por parte do público como crítica política contundente.
Um dos pontos mais controversos foi a Ala das Latas que retratou grupos religiosos e famílias tradicionais enlatadas. A crítica uniu católicos e evangélicos que classificaram o trecho como ofensivo, enquanto defensores do desfile argumentaram tratar-se de liberdade artística e crítica social.
Rebaixamento e reação nas redes
Na apuração realizada em 18 de fevereiro de 2026, a Acadêmicos de Niterói terminou na última colocação, a 12ª posição, com 264,6 pontos, sendo rebaixada para os desfiles do ano que vem.
Os jurados, todos técnicos altamente gabaritados, atribuíram notas mais baixas principalmente nos quesitos Fantasias e Enredo. Segundo a leitura técnica, a escola teria perdido clareza, com narrativa confusa e falta de harmonia e estética em meio à forte carga política.
O resultado rapidamente repercutiu nas redes sociais. Usuários contrários ao governo e ofendidos com as críticas levadas à avenida Marquês de Sapucaí associaram o rebaixamento a um “recado das urnas”, enquanto apoiadores criticaram o julgamento.
Memes e comentários políticos dominaram a internet ainda na Quarta-Feira de Cinzas, ampliando a dimensão do episódio.
Judicialização e liberdade artística
Antes mesmo da apuração, o desfile foi alvo de ações judiciais movidas por partidos e parlamentares da oposição, que alegaram propaganda eleitoral antecipada e uso indevido do dinheiro público, já que o carnaval deste ano teve recursos liberados pelo Governo Federal.
Na semana que antecedeu os desfiles, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu não impedir a apresentação, fundamentando-se no princípio da liberdade de expressão artística. Contudo, no voto dos ministros ficou clara a possibilidade de novas ações a partir dos desfiles, sem deixar de advertir que poderia haver crime eleitoral na apresentação da escola de samba.
A decisão evitou a suspensão do desfile, mas manteve o debate sobre os limites entre manifestação cultural e discurso político em ano eleitoral.
Carnaval como termômetro político
O episódio reforçou o papel histórico do Carnaval como espaço de crítica social e política no Brasil. Escolas de samba tradicionalmente abordam temas históricos e contemporâneos, muitas vezes com posicionamento crítico.
No entanto, em um cenário de forte polarização nacional, a interpretação do desfile extrapolou o campo cultural e passou a ser analisada sob a ótica eleitoral.
Analistas avaliam que o impacto político direto ainda é incerto, mas o caso evidenciou a sensibilidade do debate público em 2026.
Se, por um lado, o desfile mobilizou apoiadores e críticos, por outro mostrou que o Carnaval permanece como arena simbólica de disputas narrativas.
Com o rebaixamento confirmado da Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula e criticou parte da sociedade e o ex-presidente Bolsonaro, e a Viradouro celebrando o título, o episódio marcou o início de um ano em que cultura e política caminham lado a lado no debate eleitoral nacional.

