Lily Farias
Tubarão
O Dia da Consciência Negra é celebrado sempre em 20 de novembro desde 1960. A data é considerada um marco para a sociedade quando se trata de igualdade racial e a inserção do negro na sociedade no mais amplo sentido da palavra. Dos 5.564 municípios brasileiros, 757 adotam o dia como feriado. Em Santa Catarina apenas a capital paralisa os trabalhos para lembrar o dia.
Apesar da reflexão ser aberta, o preconceito ainda é evidente no país. A balconista Patrícia dos Anjos, de Tubarão, conhece bem o significado da palavra. Para ela, o Dia da Consciência Negra é um momento para se pensar sobre os maus tratos com a etnia.
“Já passei por muitas situações que me fizeram sentir humilhada e não chega nem perto do significado que dizem ter este dia”, avalia Patrícia.
Para o professor de sociologia José Wanderley Araújo da Rosa, o sistema injusto tenta oprimir a população e os negros são os que mais sofrem.
“Setenta por cento das pessoas pobres são negras. É um triste histórico de sofrimento. Mesmo com a conquista de muitas coisas em favor dessa parcela da população, ainda é preciso criar estratégias de luta e permitir a conquista de espaços para serem sementes dessa mudança”, enfatiza o professor.
Eventos visam a conscientização
Algumas entidades, como o Movimento Negro (o maior do gênero no país), organizam palestras e eventos educativos. Durante as ações procura-se evitar o desenvolvimento do auto-preconceito. Em Tubarão, a câmara de vereadores realizou, ontem, uma sessão de homenagens.
No Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja), o Mocnetu realizará palestras nesta sexta-feira e sábado: ‘Nos livramos da escravidão formal, não do preconceito’, ministrada pelo professor Maurício da Silva; ‘Negros na vila em Tubarão no final do século 19’, pelo o professor Paulo Henrique Lúcio; e ‘Identidade, cultura e patrimônio’, ministrada pelo educador Marcos Rufino Canetta.
A 20ª Zumbi Afro, ocorrida em Içara neste domingo, reuniu pastorais afros das dioceses de Tubarão e Criciúma. Durante o evento foram homenageados os tubaronenses Aldo Aleixo, representante da pastoral afro Maria Cândida, e o professor Maurício da Silva. Ao fim do encontro, o conselho representativo de todas as pastorais decidiu que 21ª Zumbi Afro, no próximo ano, será em Tubarão.
“A libertação dá-se por meio de livros”
O tema ‘Consciência Negra’ é trabalhado em sala de aula com a finalidade de ensinar a cultura afro e promover uma reflexão sobre a importância dos negros estarem inseridos no convívio social igualitariamente. Durante a semana que lembra a data, o professor de sociologia José Wanderley Araújo da Rosa discute o resgate histórico da data com os alunos da escola Dr. Otto Feuerschuette, em Capivari de Baixo.
“A ideia é ensinar a valorização do elemento negro na sociedade a partir da consciência negra. Vejo a escola a grande fonte de libertação. Se nossos antepassados lutaram com armas, hoje a luta dá-se com os livros e as canetas”, salienta Wanderley.
Ainda sobre a educação, mas relacionado às cotas raciais, principalmente para as universidades, ele acredita ser um remédio amargo, mas necessário, mesmo que divida opiniões. “Muitos não concordam, mas cheguei na posição de líder, sendo professor, devido a oportunidade que tive e aproveitei. O acesso à universidade é uma oportunidade de superar os preconceitos”, reflete.
Wanderley teve uma infância humilde. Viveu na roça até os 15 anos e acredita que o fato de ser professor, faz com que as responsabilidades sejam maiores.
“Representamos um modelo a ser seguido para aquela parcela negra que ainda não teve acesso ao crescimento”, completa o educador.

