O mundo marcou, neste 1º de dezembro, o Dia Mundial de Luta contra a AIDS sob um cenário contraditório: enquanto a ciência registra alguns dos maiores avanços da história no combate ao HIV, o financiamento global destinado à prevenção e ao tratamento sofre seu pior declínio em décadas. O alerta é do UNAIDS, que vê risco de retrocessos profundos até 2030.
Esse contraste ficou evidente na África, região mais afetada pela doença. Países como África do Sul, Eswatini e Zâmbia iniciaram a aplicação do lenacapavir, um novo medicamento de uso semestral que reduz o risco de transmissão do HIV em mais de 99,9%. A inovação representa um marco para a prevenção e o tratamento.
Ao mesmo tempo, cortes drásticos na ajuda internacional ameaçam desmontar programas essenciais.
Financiamento global cai e ameaça programas
O Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária arrecadou US$ 11,34 bilhões em sua cúpula de recomposição — muito abaixo da meta de US$ 18 bilhões. Os Estados Unidos, tradicionalmente o maior doador, reduziram sua participação para US$ 4,6 bilhões, ante US$ 6 bilhões no ciclo anterior.
A crise não é isolada. Segundo a OCDE, a assistência internacional à saúde pode cair entre 30% e 40% em 2025, comparado a 2023. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a ajuda global ao desenvolvimento na área da saúde já havia recuado 22%, puxada por cortes nos programas americanos.
Os efeitos já são sentidos em campo:
Distribuição de preservativos caiu 55% na Nigéria
2,5 milhões de pessoas perderam acesso à PrEP oral
60% das organizações comunitárias lideradas por mulheres interromperam projetos
“A resposta global ao HIV sofreu seu revés mais significativo em décadas”, afirmou Winnie Byanyima, diretora executiva do UNAIDS.
Avanços dão nova esperança
Apesar dos cortes, o progresso científico avança em ritmo acelerado. O lenacapavir, recomendado pela OMS em julho e pré-qualificado em outubro de 2025, oferece proteção por seis meses com uma única aplicação.
Um acordo entre a Gilead Sciences e organizações internacionais garantirá doses suficientes para atender 2 milhões de pessoas ao longo de três anos nos países mais afetados.
Graças a acordos de licenciamento que cobrem 120 países, a versão genérica do medicamento poderá custar cerca de US$ 40 por ano, muito abaixo dos US$ 28 mil cobrados nos EUA.
O Leste e o Sul da África — onde vive mais da metade das 40,8 milhões de pessoas com HIV no mundo — serão as regiões prioritárias.
Outros tratamentos de longa duração, aplicados bimestralmente, também têm ganhado adesão. 43% dos pacientes preferem essas formulações.
Corrida contra o tempo
Modelos do UNAIDS projetam que a falta de investimento pode resultar em:
3,3 milhões de novas infecções entre 2025 e 2030
9,2 milhões de pessoas sem acesso a antirretrovirais que salvam vidas
A ONU pede que os países ampliem o financiamento interno para evitar que o HIV volte a crescer globalmente — algo que especialistas consideram possível já na próxima década caso o cenário não mude.

