A partir de um artigo publicado pelo doutor Drauzio Varela que expressa de forma reflexiva e questionadora o quanto é fundamental que gestores públicos tenham um discurso político adequado à contemporaneidade, com as novas expressões subjetivas de ser homem e ser mulher, não podemos ignorar e não querer ver que estes sujeitos existem, que precisam ser reconhecidos em todos os espaços da sociedade, não somente nas beiras das calcadas invisibilizadas na noite.
Apesar de que muitas meninas trans. somente terem como opção e sustento esta profissão, ou outras, não expressam a menor vergonha de ser profissional do sexo como forma de afirmação.
“De todas as discriminações sociais, a mais pérfida é a dirigida contra os travestis. Se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotas de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias que a imaginação mais tacanha fosse capaz de repudiar, a somatória não resvalaria os pés do desprezo virulento que a sociedade manifesta pelos travestis”.
Não sei se há muitos motivos para comemorarmos a data, pois temos uma situação que é vergonhosa em nosso país, no qual se constata por estimativas que a cada dois dias uma travestis ou transexual é assassinada pelo simples fato de não se admitir no “outro” que um dia nasceu marcado para ser o que a sociedade impõe e que contraria a norma para poder viver e vivenciar sua experiência como sujeito trans. O que mais incomoda em uma travesti-transexual é sua identidade de gênero. Como um “homem” que nasceu com um órgão biológico masculino queira usar vestimentas ditas do sexo ’feminino’. Como pensada nas palavras de Madame Bovary, a mulher teve que se construir “não se nasce mulher”. Podemos perceber ao longo da história e em diferentes culturas as conquistas para a autoafirmação de uma categoria de gênero que luta por direitos e igualdades. É deste contexto e a partir de conceitos e fundamentações acerca do “ser mulher” é que surge o movimento de mulheres trans. (travestis e transexuais).
Não somente a violência explícita através dos assassinatos é mais conflituoso na população de travesti ou transexual, mas o grau de importância expresso pelo poder público em solucionar os casos cometidos. Em nosso município, um caso que reforçou as estatísticas foi o ocorrido em 2010. Até agora não se sabe quem a matou. Sendo que a família de Brenda sempre esteve presente e questionando o assassinato, pedindo justiça. O não esclarecimento revela o quanto a morte de uma travesti é algo que não incomoda as autoridades e a sociedade.
A mídia, ao se dirigir as travestis e transexuais, faz questão de usar termos do tipo o traveco, o travesti, um travesti, se são as mesmas reconhecidas com termos e definições no masculino, como mudar este jeito de ver e perceber o “outro” e incluí-lo. Para isso, se faz necessário políticas públicas em todos os espaços da vida social e do direito nas escolas através da utilização do nome social nos registros. Em Santa Catarina, há uma recomendação por uma CI aprovada pelo Conselho Estadual de Educação e recomendado pela SED que as unidades escolares respeitem a identidade das travestis e transexuais. Em empresas privadas capacitando seus funcionários para compreender e respeitar as diferentes formas de expressão do masculino e feminino, ver e perceber a diversidade como fundamento da igualdade. São alguns princípios norteadores e que fazem a diferença para o convívio harmonioso e saudável.
Temos várias ações que precisam ser implantadas no estado de Santa Catarina. A criação de uma secretaria da diversidade, objetivando o diálogo com as academias que discutem a temática, otimizando a interlocução através de redes, advocay político em diferentes espaços e segmentos. Centro especializado de saúde em atendimento específico para travestis e transexuais na aplicabilidade do Plano de Enfrentamento da Epidemia de Aids para Gays-HSH e Travestis.
Delegacia especializada para atendimento nos casos de homofobia e transfobia, podendo de forma articulada ocupar o mesmo espaço da delegacia de Mulher, Criança e Adolescente para ampliação das demandas LGBTT. Antes de tudo, implantar estas ações requer um governo que estava a serviço de uma sociedade laica, como prevê a Constituição Federal, e que sua gestão estará a serviços dos diretos civis fundamentais e da dignidade humana. (Continua na edição de amanhã).

