terça-feira, 24 março , 2026

Discursos de tradição, feminicídio, Brasil

Coautora: Karine Gomes Vieira

Não há consenso sobre o aniquilamento da população masculina paraguaia durante a guerra travada entre 1864 e 1870. A maioria dos estudiosos está concorde que o conflito dizimou algo como 90% dos homens acima de 20 anos.

A Guerra do Paraguai ocorreu há século e meio. Hoje, os quase sete milhões de habitantes daquele país são metade homens, metade mulheres. Em tempos de natureza, cento e cinquenta anos não são nada.

Nesse nada temporal o equilíbrio de nascimento entre os sexos se restabeleceu. Quem se der ao trabalho de estudar os dados estatísticos verá que foram nascendo decrescentemente mais homens até ocorrer paridade.

A população mundial divide-se quase igualmente entre homens e mulheres. As poucas discrepâncias relevantes que ocorrem são consequência de conflitos armados de grandes proporções ou de migrações de um único sexo.

Os Emirados Árabes, como quase todo o Oriente Médio, concentra, hoje, quase três homens para cada mulher. Isso decorre de a região receber levas de imigrantes homens que vão procurar emprego sem suas famílias.

Outro desequilíbrio sucede na Rússia e nos países que compunham a União Soviética – URSS. Quinze por cento a mais de homens. Explica-se a redução da população masculina: guerras mundiais e assassinatos de Stalin.

O Brasil está equilibrado. Noventa e sete homens para cada cem mulheres. Talvez a violência urbana e rural e as mortes no trânsito (matamo-nos mais do que em países com guerra civil) sejam a causa da pequena diferença.

O equilíbrio mundial de nascimento de um e outro sexo impressiona. Os estudiosos do assunto têm dados que mostram que após grandes tragédias nascem mais mulheres que homens, depois tudo volta ao normal.

Que levaria a isso? Não há controle humano possível. A natureza, então, teria vontade própria incidente na questão? Não há explicação conclusiva. Não dominamos todos os acontecimentos do mundo. Ainda não nos elucidamos de todo.

O humano não se sabe completamente. Uma hipótese afirma que somos uma falha da natureza. A evolução produziu os códigos genéticos. No tempo e no espaço os animais, afora os humanos, se repetem.

Os bichos de uma mesma espécie comportam-se de modo igual sempre. As modificações que eventualmente estabelecem diferença derivam de relações com o meio ambiente e produzem seleção.

O humano consolidou-se seletivamente como uma coisa à parte. Nós pensamos sobre o nosso próprio pensamento. Sabemos que sabemos. Acumulamos conhecimento. Criticamos a nós mesmos e podemos nos rever.

No hardware (a máquina humana) instalou-se software (a cultura humana). Isso está claro. Mas sabe-se que a coisa é mais complexa. A cultura instalou-se na máquina antes de a máquina ficar completamente pronta.

Conteúdos culturais, pois, não são apenas uma instalação posterior ajustada a um cérebro pronto. Cultura e anatomia implicaram-se. A cultura encontrou condições no cérebro. O cérebro evoluiu com propiciações da cultura.

Na natureza animal há macho e fêmea. Humanos, um dia, foram macho e fêmea. As condições de anatomia, ou de bioquímica, separaram funções sociais. O desempenho selecionou os melhores no cumprimento das funções.

Na selva as diferenças físicas do macho e da fêmea recomendavam diferentes papéis. A situação era meio binária. Na natureza, contudo, machos não matavam fêmeas nem discursavam hierarquia. Eram funções. Só.

Daí os homens (macho mais cultura) começaram a valorizar seus papéis e a subordinar os papeis das mulheres (fêmea mais cultura). Já longe do ambiente natural produziu-se socialmente o patriarcado.

O patriarcado prestigiou as funções sociais masculinas (funções não requeridas pela natureza). Criou discursos diferenciadores dos sexos além do que os sexos têm de diferentes. Surgiram controle e violência.

Os discursos patriarcais geraram o machismo. O machismo ocupou mentalidades de homens e de mulheres. Homens e mulheres mantêm, ainda que cada vez menos, a reprodução (historicidade) do patriarcalismo.

Tempos herdados: produção histórica patriarcal: sexos com papéis sociais distintos, controlados, repetidos. Novos tempos: construção social libertária: equivalência entre sexos. Reações machistas: violências, mortes.

O macho natural situado como homem social houve-se com mais direitos do que a mulher social que resultou da fêmea natural. Diferenças biológicas preservadas, contudo, não justificam diferenças sociais ou brutalidade.

Tais coisas seguem codificadas em discursos de tradição, de famílias exemplares, de religiões. Homens e mulheres, por equívoco ou estupidez dão-se em holocausto aos seus rituais. Repetem um passado que só faz mal.

Essa persistência não é natureza. É ideologia. Defende diferenças inaceitáveis entre sexos. Ideologia vencida, não extirpada. Vigora entre machistas. É só ler os jornais: Brasil, quinto país do mundo em homicídios de mulheres.

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