FOTO PML Divulgação Notisul
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Durante boa parte do século XX, ir ao cinema em Laguna era muito mais do que assistir a um filme. As salas de exibição funcionavam como espaços de encontro, convivência e lazer, reunindo moradores e visitantes em uma cidade que chegou a abrigar sete cinemas, um número considerado expressivo para um município do litoral catarinense.
Cine Poeirinha, Cine Roma, Cine Central (ou Palace), Cine Glória (antigo Arajé), Cine Natal, Cine Saturno e Cine Mussi marcaram diferentes gerações. Hoje, apenas o Cine Teatro Mussi permanece em atividade, preservando a memória de um período em que Laguna se consolidou como um dos principais polos culturais de Santa Catarina.
Uma cidade onde o cinema fazia parte da rotina
As salas de cinema estavam distribuídas pelo Centro Histórico e movimentavam a vida cultural lagunense. Mais do que espaços de entretenimento, eram locais de convivência, onde famílias, amigos e casais se encontravam para acompanhar os grandes lançamentos da época.
A professora Renata Rogowski Pozzo, do Departamento de Geografia da Udesc Laguna e autora do livro O Cinema na Cidade (2016), destaca que os cinemas exerciam um papel central na dinâmica urbana.
Segundo a pesquisadora, essas salas funcionavam como importantes pontos de sociabilidade, fortalecendo os vínculos entre os moradores e contribuindo para a identidade cultural da cidade.
A tradição era tão forte que visitantes de Criciúma e de outros municípios do Sul catarinense viajavam até Laguna para assistir às sessões. A cidade oferecia equipamentos modernos, programação atualizada e salas que impressionavam pela arquitetura e pelo conforto.
O Cine Teatro Mussi nasceu para ser um símbolo
A história do Cine Teatro Mussi começou em meados da década de 1940, quando os irmãos João, Carlos e Antônio Dib Mussi decidiram construir uma das mais modernas salas de cinema de Santa Catarina.
O projeto foi assinado pelo arquiteto suíço Wolfgang Ludwig Rau, responsável também por outras obras importantes no Estado e conhecido em Laguna pelos estudos sobre Anita Garibaldi e pelo projeto do monumento ao Tratado de Tordesilhas.
A construção teve início em 4 de abril de 1947. Para equipar o cinema, foram adquiridos modernos projetores a carvão em São Paulo e poltronas produzidas em Rio Negrinho. Outro destaque era o sistema de iluminação indireta, formado por mais de 1.800 lâmpadas, que conferia elegância ao ambiente.
A inauguração aconteceu em 17 de dezembro de 1950, com a exibição do filme A Valsa do Imperador. O interesse foi tão grande que os ingressos se esgotaram antes do início da sessão.
Após mais de quatro décadas de funcionamento, o Cine Mussi encerrou suas atividades em 1992.
Anos depois, o prédio passou por um amplo processo de restauração conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com investimento de R$ 7,23 milhões, sendo reinaugurado em 2014 como espaço cultural.
Hoje, o Cine Teatro Mussi conta com capacidade para 410 espectadores, distribuídos entre plateia e mezanino, mantendo-se como o principal palco cultural de Laguna.
O Cine Roma marcou a reta final dos cinemas de rua
A última grande sala de cinema inaugurada em Laguna foi o Cine Roma, aberto em 22 de agosto de 1965.
Menor que o Mussi, o espaço representou o último grande investimento no modelo de cinema de rua. Durante alguns anos, as duas salas dividiram o protagonismo da programação cultural da cidade.
Com a popularização da televisão nas décadas seguintes, porém, o público diminuiu gradativamente. Um a um, os cinemas fecharam as portas, encerrando um importante capítulo da história cultural lagunense.
Dos sete cinemas que marcaram época, apenas o Cine Teatro Mussi permanece em funcionamento.
Palco das comemorações dos 350 anos de Laguna
Na programação dos 350 anos de Laguna, o Cine Teatro Mussi voltou a ocupar posição de destaque.
A Fundação Lagunense de Cultura investiu na modernização do espaço, com novos sistemas de iluminação cênica e sonorização, ampliando a capacidade técnica para receber espetáculos de teatro, música, dança, cerimônias oficiais e diversas manifestações culturais.
O teatro deixou de ser apenas um patrimônio histórico preservado para voltar a desempenhar o papel de principal palco artístico do município.
Ao longo deste mês de julho, o espaço recebe apresentações que integram a programação oficial do aniversário da cidade, reunindo artistas locais e convidados em uma agenda dedicada à valorização da cultura lagunense.
Maquete do Centro Histórico amplia a experiência dos visitantes
Além da programação cultural, o Cine Teatro Mussi passou a abrigar um novo atrativo permanente.
Trata-se da maquete oficial do Centro Histórico de Laguna, desenvolvida por estudantes do curso de Arquitetura e Urbanismo da Udesc entre 2021 e 2024.
Com mais de 10 metros quadrados, a peça reproduz com riqueza de detalhes o conjunto arquitetônico tombado da cidade. O trabalho foi apresentado ao público pela primeira vez em novembro de 2025, durante o evento “Turismo e Patrimônio: Caminhos da História”, e atualmente integra a visitação permanente do espaço.
A maquete pode ser visitada de segunda a domingo, das 7h às 19h, juntamente com as demais atrações do Cine Teatro Mussi.
A permanência do teatro em atividade representa não apenas a preservação de um edifício histórico, mas também a continuidade de uma tradição cultural que marcou gerações de lagunenses. Em uma cidade que já contou com sete cinemas, o Mussi mantém viva a memória de um período em que o cinema ocupava papel central na vida social e cultural de Laguna.
