Não conheceu como eu o conheci, é verdade. O Zenon menino, de perto da minha casa, em Tubarão, era outro tipo de jogador. Para nós, amigos de infância, ele era só o Zenon, o magrelinho elétrico filho do “seu Noé” da farmácia, morador da rua Santos Dumont, bem em frente do campo do Grêmio Desportivo Cidade Azul, paralela à minha – a Rui Barbosa – esta mais conhecida, até então, como a rua do Campo do Hercílio.
Naquela época, o danadinho serelepe da “Zona Norte”, é claro, já sabia tudo de bola. E como sabia. Detalhe: quem morava na Rui Barbosa era da Zona Sul e os da Santos Dumont, da Zona Norte. Uma paralela a outra, e rivais no futebol. Só no futebol, pois fora de campo todos se davam, e muito bem!
Era rápido como um raio e driblador como poucos. Não escolhia nem se escondia do adversário e, muito menos, selecionava os melhores jogadores para o seu time. E, desse jeito, levava sempre seu grupo nas costas e, invariavelmente, deixava o adversário na estrada.
Antes de começar as peladas, quando não era jogo “oficial” entre as duas ruas e misturavam-se os da Norte e Sul, às vezes no Campo do Grêmio, outras no “Beira-Valo” da Rui Barbosa, ou, na mesma rua, nos fundos da minha casa, entre canteiros de alface, salsinha e cebolinha, que, a propósito, minha mãe cuidava com muito carinho e nós estragávamos tudo; sem ser exibido – o que nunca foi -, mas por confiar no seu taco, o nosso moleque travesso dava-se ao luxo de propor:
– Vocês aí, escolham os melhores que eu fico com o resto! E não é que com o tal resto (que não era tão resto assim) ele dava conta do recado mesmo?! Poucas vezes perdia um jogo e quase sempre vencia com sobra de gols. (Futebol de trave curta, três contra três).
Isso sem contar com a precisão das suas cobranças de falta de fora da área, uma brincadeira de todas as tardes no já extinto Campo do Grêmio. (dois contra dois – um chutava e outro ficava na rebatida -, enquanto os dois adversários ficavam na trave, embaixo do gol, para tentar defender). Acho até que veio dali aquela precisão milimétrica que o consagrou nesse tipo de jogada, e, não duvido, até o chute forte.
Fora do circuito catarinense, o Zenon criança pouco se ligava em futebol. Gostava mesmo era de jogar. Por aqui, sempre torcia pelo time onde seu ídolo maior e irmão Lado jogasse, falando-se aí do rápido ponta direita que atuou, e muito bem, tanto no Hercílio quanto no Ferroviário, nos anos 60/70. Isto significava dizer que o time de Zenon era sempre, e com razão, o Lado F.C. Como se observa, desde cedo, para ele, a família vinha em primeiro lugar – aliás, uma família imensa, cujos nomes dos irmãos e irmãs, curiosamente, começam todos com a letra “Z”.
Do costume de jogar futebol de trave curta, herdou, é claro, os dribles rápidos e, já dito, das cobranças de falta, a eficiência. Quanto aos lançamentos, não sei exatamente onde aprendeu, pois antes de profissionalizar-se jamais o vi fazer isso nas nossas peladas, até porque em campos tão pequenos, de fundo de quintal, tal façanha mostrava-se simplesmente inviável. Deve ter sido coisa lá do Ourinhos, do amigo e “mestre” Sabino.
Outra coisa peculiar: Zenon, quando surpreendido com um gol do adversário, condição que o colocava em desvantagem no placar, pegava a bola, já na batida de “centro”, baixava a cabeça e saía fazendo fila a driblar todo o mundo, em direção ao gol, tentando entrar com bola e tudo, o que, por muitas vezes, conseguia.
Nesses momentos de rompante, o intrépido foguetinho da Santos Dumont virava um fominha de primeira e não queria saber de passar a bola, queria mesmo era resolver a parada sozinho. E resolvia! Mais adiante, apanhando frutos do mesmo pé, a experiência ensinou e poliu o nosso fominha, aprimorando-lhe a técnica, fazendo-o, assim, um craque dos mais notáveis do Brasil. Logo, com tanta qualidade, avançou vertiginosamente rumo ao sucesso de amplitude nacional e internacional.
E o filho do Seu Noé, que do futebol de campo veio do time amador do Palmeiras de Congonhas para o Hercílio Luz em troca de um jogo de camisa, mudou-se para Florianópolis, para jogar no Avaí; de lá para o Guarani; depois para o famosíssimo Corinthians. Jogou ainda na Arábia, Portuguesa, Atlético Mineiro e São Bento de Sorocaba. E na consagração e reconhecimento de sua habilidade com a bola, chegou à seleção brasileira. Por conta disso tudo, então, posso dizer com todas as letras que tenho a satisfação de estar convivendo com dois Zenons; um, o craque, e o outro, um grande amigo.

