Início Opinião É possível romper o ciclo da pobreza e da criminalidade

É possível romper o ciclo da pobreza e da criminalidade

Sugeri na Conferência Nacional de Educação (Conae, 2010), etapa de Tubarão – consta do Plano Nacional de Educação, aprovado pelo Congresso Nacional (2014) e constará de todos os Planos Municipais de Educação que deverão ser aprovados até o dia 24 do próximo mês – uma medida para romper o ciclo da pobreza e da marginalidade. Trata-se de oportunizar educação infantil, de qualidade, em tempo integral, para todas as crianças, principalmente as que estão em situação de vulnerabilidade. 

Fiz com base nos seguintes estudos:
1) Em comparação com meninos e meninas ricos, crianças pobres demonstram, em testes com neurocientistas, menos atividade no córtex pré-frontal – área do cérebro relevante para a criatividade e solução de problemas -, o que se traduz em limitação, muitas vezes, para sempre, do aprendizado (Instituto de Neurociências Helen Wills da Universidade da Califórnia);

2) O problema não é necessariamente a pobreza, mas o precário estímulo lúdico no ambiente em que vivem (Thomas Boyle – Dimenstein, Folha de São Paulo, 07/12/2008). No momento em que elas começarem na pré-escola ou no ensino fundamental, já com 4 ou 6 anos, terão dificuldades para alcançar aqueles que receberam estímulos (Jack Shonkoff, pesquisador de Harvard).

3) Educação infantil foca sobre pensar, resolver problemas, saber interagir em grupo, controlar seu comportamento e sentimentos – tudo isso junto é preciso para que sejam estabelecidas bases fortes e necessárias para a educação formal posterior e para o mercado de trabalho. Um trabalhador, um homem de negócios, não é apenas inteligente, ele precisa ser capaz de dominar outras habilidades (Jack Shonkoff, pesquisador de Harvard).

4) Tentar sedimentar, em um adolescente, o tipo de conhecimento que deveria ser apresentado a ele, dez anos antes, sai 60% mais caro e é menos eficaz, ensina o economista americano James Heckman;

5) Excesso de TV e Internet na infância aumenta o risco de vida sexual precoce, abuso de álcool, fumo e droga, além de obesidade (Universidade de Yale);

6) Crianças que vivem longe de áreas verdes tendem a engordar mais do que as que moram próximas de parques ou praças (Escola de Saúde Pública da Universidade de Washington).

Quer dizer: Além da proteção no sentido amplo, esta etapa da escolaridade poderá estimular, na idade adequada, as habilidades e competências cognitivas relacionadas ao sucesso escolar e profissional, ao suprir, primeiro, as carências de espaços públicos para a prática do esporte, do lazer e da cultura, que são excelentes estimuladores e, segundo, a ausência dos pais – mesmo quando presentes – no que tange às experiências enriquecedoras para a formação dos filhos. Sem deixar de lhes cobrar responsabilidades.

A ausência destes estimuladores, na primeira infância, potencializa o mau desempenho e a evasão escolar, o envolvimento com drogas, gravidez na adolescência e criminalidade.

Esta medida significa: 
a) Romper a perversa estrutura educacional brasileira, geradora das desigualdades educacionais e, consequentemente, sociais, ao oferecer ensino superior gratuito para quem pode pagar, salvo raríssimas exceções, enquanto milhares de crianças, em especial as mais pobres, estão fora da educação infantil por falta de vaga; 

b) Salvar o futuro de milhares de jovens e do próprio Brasil que, sem esta premissa, prosseguirão às margens da economia global. 

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