sexta-feira, 21 agosto , 2026

“É preciso um tratamento de choque”

Professor e presidente do Conselho de Segurança (Conseg) de Tubarão, Maurício da Silva faz uma breve avaliação dos dados contidos no Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil. O documento, elaborado pelo Instituto Sangari em parceria com o Ministério da Justiça, traz um diagnóstico da violência no Brasil, que tem causado mortes, principalmente de jovens, nos grandes centros urbanos e no interior. “Uma das causas mais evidentes deste aumento da criminalidade é a desigualdade. O indivíduo é pobre e sente-se humilde. Daqui a pouco, o indivíduo pobre começa a se sentir humilhado. Então, ele torna-se o protagonista de um filme de polícia e ladrão. A sociedade já deveria ter gritado quando teve que erguer o muro meio metro. Hoje, temos um problema que parece sem solução. Mas há uma ainda: a educação”, desabafa Maurício.

Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – O Mapa da Violência mostra que os homicídios ocorridos no país têm como ‘motor’ o jovem. Como você avalia isso?
Maurício
– O jovem, hoje, está abandonado pelo poder público, pela família e pela sociedade. Em que aspecto? Na questão dos valores, dos limites e, principalmente, na questão da proteção. Acredito que se, de fato, quisermos retomar a vida saudável dos jovens, temos que fazer com que a família assuma sua responsabilidade, que o estado supletivamente faça sua parte e que a sociedade também faça a sua parte. Observo que a sociedade relegou esta parte, principalmente aos mais podres: ‘Deixa lá na periferia porque não estão incomodando’. O problema é que, uma hora ou outra, a periferia estoura no centro da cidade. Isto ocorre hoje em Tubarão, por exemplo. Então, ninguém pode ficar fora, de braço cruzados. Todos são responsáveis.

Notisul – Conforme o relatório, a criminalidade em Santa Catarina cresceu vertiginosamente. Um aumento de quase 100%. Hoje vemos a interiorização do crime. Como você avalia esta questão?
Maurício
– Avalio como a nossa triste realidade. Podemos, inclusive, trazer esta questão para Tubarão, porque o problema daqui é o mesmo do grande centro urbano. A Polícia Militar fez um mapa das áreas de risco da nossa cidade. O que teria que ocorrer nestes locais? A urbanização, abrir as ruas. Hoje está tudo batizado: Beco do Quilinho, Beco da Valdete. As pessoas que vivem ali estão excluídas. O poder público não chega até elas. Não entra o carro de polícia, a ambulância do bombeiro nem a máquina da prefeitura para arrumar a rua. Ali moram pessoas boas, mas também é o melhor lugar para o bandido se esconder. É nesses locais que o investimento do poder público deve ser feito. É preciso abrir as ruas, colocar escolas, creches e postos de saúde de qualidade. Obviamente, esbarra na questão financeira. Não uso de discurso demagogo, mas esta é uma questão que os prefeitos devem atentar antes que a situação inverta-se de vez. É preciso a presença do poder público para que o cidadão, até então de bem, não veja o traficante como o salvador da pátria, como bem-feitor que paga o gás, o médico e o remédio. É óbvio que a polícia vai levar pedrada, porque o ‘herói’ é o bandido. É a ausência do estado, é a ausência do poder público que reforça a presença da bandidagem.

Notisul – Hoje, Santa Catarina tem uma população carcerária de 12 mil pessoas e outras 12 mil aguardam vaga. São mandados de prisão abertos que não podem ser cumpridos por falta de espaço. O que fazer?
Maurício
– Só existe uma saída: trabalhar a prevenção e a repressão. Há muitos jovens já envolvidos no mundo do crime, mas a grande tarefa é não deixar que outros sigam este mesmo caminho. A matemática explica isso: se o poder público investe R$ 1,00 para educar, vai gastar R$ 2,00 para prender e R$ 3,00 para manter o indivíduo preso. Claro que é mais barato prevenir, mas é um trabalho com resultado a longo prazo. O desafio é resolver o imediato. O próprio sistema prisional não cumpre seu papel, que é o de ressocializar. Tem jovens que são conhecidos da polícia de Tubarão porque foram tantas vezes presos que até a PM já perdeu a conta. Isto é muito preocupante. A raiz do problema em todas as cidades do país: à medida que a criança cresce em situação de abandono, dá nisso. A família é a maior responsável, porque é neste espaço que a criança recebe os primeiros ensinamentos de cidadania, ou pelo menos deveria receber. O resultado é o nascimento do anti-herói: o bandido que dá o leite e recruta a criança, especialmente ao tráfico de drogas. Em Tubarão, praticamente todos os homicídios que ocorreram neste e no último ano estão ligados ao tráfico de drogas.

Notisul – A falta de tolerância não seria um agregador a esta situação?
Maurício
– Com certeza absoluta. O diferente sempre buscará outro diferente para conviver. O problema é que nem sempre este outro diferente é a melhor referência. A grande bandeira do mundo deveria ser a bandeira do diferente, seja esta diferença sexual, estética, econômica, social, religiosa, de raça. Você não precisa amar o diferente, mas é preciso respeitá-lo. Com isso, já é possível, sim, reduzir a disparidade entre as pessoas.

Notisul – Na sua opinião, por que um jovem entra no mundo do crime?
Maurício
– Falta de oportunidade e péssimo exemplos na infância. Não existe outro caminho para ser dar a um jovem senão o da escola e do trabalho. Todos estes jovens envolvidos na criminalidade têm uma característica em comum: saíram cedo da escola. Quanto mais conseguirmos mostrar o valor de que ganhar seu dinheiro com seu próprio suor, suas próprias mãos, é melhor e mais valoroso, mas conseguiremos afastá-los do caminho maligno.

Notisul – Na sua opinião, o que precisa ser feito em Tubarão para conter esta onda de criminalidade?
Maurício
– Acho que neste exato momento, em Tubarão, o tratamento tem que ser de choque. Tem que dar um choque de polícias. O bandido perdeu o medo. Nos últimos assaltos, vimos isso. Eles nem cobrem mais o rosto. Não se intimidam por ver um policial, um guarda municipal fardado na rua. A não presença da polícia faz com que a bandidagem se sinta autorizada a agir. O grande motivador para quem já está na marginalidade é justamente a impunidade. Esta seria uma frente de trabalho. Mas é preciso dar um segundo choque, que seria o de serviço social. Isto mostraria às pessoas que elas têm outra alternativa além da criminalidade. É preciso urbanizar, levar boas escolas e postos de saúde aos bairros.

Continue lendo

Presidente do CIEE/SC vem a Tubarão para apresentar resultados e acompanhar formatura de jovens

FOTO CIEE/SC Divulgação Notisul Tempo de leitura: 3 minutos O presidente do Centro de Integração Empresa-Escola de Santa Catarina (CIEE/SC), Luiz Carlos Floriani, estará em Tubarão...

Pelo Estado – Gaeco deflagra operação de combate à fraude tributária 

 Nesta quinta-feira, 20, o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO), do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), deflagrou a Operação “Labirinto Fiscal”. A investigação apura a atuação de um grupo suspeito de praticar crimes contra a ordem tributária e lavagem de capitais por meio da geração indevida de créditos de ICMS. Segundo a apuração, o esquema investigado estaria baseado no superfaturamento de insumos adquiridos por uma empresa fabricante de produtos junto a outra empresa vinculada ao mesmo núcleo empresarial, sediada em Manaus/AM. A estratégia teria sido utilizada para ampliar artificialmente os créditos tributários decorrentes das operações, gerando vantagens fiscais indevidas. De acordo com informações da Secretaria de Estado da Fazenda, as irregularidades investigadas podem ter causado prejuízo superior a R$...

Operação apura fraude fiscal com prejuízo acima de R$ 500 milhões em SC

FOTO MPSC Divulgação Notisul Tempo de leitura: 3 minutosO Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (GAECO) deflagrou, na manhã desta quinta-feira (20),...

Policial penal transforma 19 anos de vivências no sistema prisional em livro

Depois de 19 anos trabalhando no sistema prisional de Santa Catarina, o policial penal Vlademir Pacheco Custódio encontrou na literatura uma forma de registrar...

PM atende 127 ocorrências em 24 horas e destaca cinco casos no Sul de SC

FOTO Notisul Tempo de leitura: 3 minutos A Polícia Militar atendeu 127 ocorrências em 24 horas na região, entre as 7h de quarta-feira (19) e as...

Operação mira falsa central de plano de saúde após golpe contra moradora de SC

FOTO PCSC Divulgação Notisul Tempo de leitura: 2 minutos A Polícia Civil de Santa Catarina deflagrou nesta quinta-feira (20) a Operação Falsa Central Médica, contra um...

Mulher que fingiu ter 12 anos aguarda sentença em SC

A audiência de instrução e julgamento da mulher de 38 anos acusada de fingir ter 12 anos ocorreu na quarta-feira (19), em Santa Catarina....

Novas regras da Lei Seca regulamentam pré-teste; entenda

As novas regras da Lei Seca começaram a valer em todo o país e regulamentam o uso do pré-teste ou teste passivo de alcoolemia...