segunda-feira, 2 março , 2026

Ele ouviu do sargento que negro não faz jornalismo e hoje atua em uma grande emissora

“A gente tem que chegar aqui para que os próximos que vierem saberem que é possível e que têm que estar onde a gente quiser.”

“O senhor é preto, soldado! O lugar do senhor é aqui. O senhor já viu jornalista preto, soldado?”.  O carioca Marcos Luca Valentim, 31 anos, tinha apenas 18 anos de idade quando ouviu essas duras palavras de um sargento na época que prestou o Serviço Militar Obrigatório no Rio de Janeiro. Apesar dessa fala assombrá-lo por muito tempo, hoje, ele é jornalista: um jornalista negro da área de esporte da maior emissora de televisão do país, mostrando que jornalismo é lugar de negro, sim, e mais onde ele quiser!

“Eu me senti humilhado, eu sonhava a vida inteira em fazer isso e de uma hora para outra, um cara que eu nem conheço e que nem me conhece, vira e fala isso para mim, que eu não posso? Eu não levei isso pra casa, resolvi dentro de mim para não baixar a cabeça!”, relatou o jornalista ao Razões.

Como todo jovem brasileiro, ao completar 18 anos, Marcos teve que fazer o alistamento militar obrigatório. Durante o processo seletivo, desejou muito não passar, mas não teve jeito, foi um dos selecionados. Durante o seu período no Exército, deixava claro que não queria isso para a sua vida e que o seu sonho era o jornalismo.

Mesmo assim, ele “ganhou respeito” dos superiores quando recebeu o diploma como o melhor do TAF (Teste de Aptidão Física).

“Eu faço aniversário dia 31 de dezembro, então, eu era o mais novo a me alistar. E eu acabei servindo, o meu pai também, e ele não queria servir pelo mesmo motivo que eu, não queria parar de estudar. Não que o Exército te proíba de estudar, não é isso, mas absorve muito o seu tempo ali dentro. Ficava dias sem ir para casa”, disse.

Mas num dia, após passar a manhã capinando, o sargento o chamou para ir à frente do pelotão. Na hora, Marcos achou que ele seria escolhido para ser o xerife da semana, mas não.

“- Senhores, este soldado aqui quer sair daqui, senhores. Ele quer estudar, senhores. O senhor quer estudar o quê, soldado?

– Jornalismo, senhor.

– Jornalismo, é? Entendi, soldado – e, após breve pausa, sacramentou.

– Soldado, o senhor é preto, soldado! O lugar do senhor é aqui, soldado! O senhor já viu jornalista preto, soldado?”

‘Eu não sou contra o Exército, eu sou contra o racismo’

“Eu, como negro, acredito que todos já tiveram alguém que disse que você não é capaz, que você não vai conseguir, a cada momento, a cada dia a gente sofre isso, seja no olhar, numa atitude, no afastamento de alguém que atravessa a rua, que não passa por perto, que te olha de baixo pra cima, então, estou acostumada desde cedo a lidar com isso, com o racismo. E isso me move das mais diversas formas”, desabafou.

“Eu sempre uso as minhas redes sociais para contar histórias do cotidiano, e o meu cotidiano, é o cotidiano de um negro brasileiro. Quero mostrar às pessoas que muitas cenas corriqueiras são pedaços de racismos desapercebidos e muitas vezes enraizados. Acho que a nova geração precisa ver que não é normal. Numa sociedade racista, não basta não ser racista, tem que ser antirracista, então, não adianta você falar e não fazer nada para combater o racismo.”

Um negro e bolsista na Zona Sul

O jornalista foi criado numa casa em que a educação era prioridade. O pai, de origem bem humilde, é professor e doutor em letras. Marcos foi alfabetizado aos cinco anos de idade pelos próprios pais.

“Eu acho que os meus pais são as pessoas mais inteligentes que eu tive contato na minha vida. Minha mãe tinha vários empregos e o meu pai trabalhava em várias escolas, porque ele é professor, então, os dois trabalharam muito para me fazer ser quem eu sou, e hoje eu devo tudo a eles, não me faltou nada”, contou.

Por conta disso, Marcos sempre foi bolsista nas escolas particulares que estudou, já que as escolas públicas tinham um ensino não tão bom.

Mas o jornalista contou que não era fácil ser o único negro numa escola da Zona Sul do Rio de Janeiro com cerca de 500 alunos brancos, e que muitas vezes, mesmo sem se dar conta, era alvo de racismo. “Eu era um bom aluno, é claro, se não perdia a bolsa, mas eu era muito bagunceiro, não parava quieto”, relembra aos risos.

Representatividade no jornalismo

A paixão por contar histórias vem desde a infância, e foi essa paixão que o levou ao jornalismo! Porém, como o próprio Marcos contou, na época, não existiam realmente jornalistas negros, e quando o sargento lhe falou aquilo, ele, por um momento, acreditou.

“Eu pensei que ele estava falando a verdade. Porque, quem vai me dizer que vou chegar lá, se eu não tinha ninguém que chegou para eu me espelhar? Eu pensei muito se isso era realmente para mim. Por mais que existisse uma Glória Maria, era uma Glória Maria para mil outros jornalistas brancos! Eu não conhecia ninguém perto de mim, nenhum negro que tinha chegado a ser jornalista”, disse.

E as palavras do sargento o assombraram ainda por muito tempo, até quando iniciou a sua carreira nas redações.

“Era eu e no máximo mais um negro – e falo isso das redações grandes como Redetv, SBT, Jornal do Brasil. Então, no início foi difícil, pensava muito no que o sargento tinha me dito e eu perguntava se realmente ali era o meu lugar, porque parecia que não era, pois não tinha ninguém igual a mim.”

Hoje, ele usa muito a sua história e as redes sociais para contá-la! E que a questão de representatividade está melhorando por conta da internet, mas que ainda está muito longe de ser o que realmente deve ser.

“A gente tem que chegar aqui para que os próximos que vierem saberem que é possível e que a gente têm que estar onde a gente quiser.”

Marcos, temos certeza que você vai ser um grande exemplo p

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