Afirmei, em recente artigo, que “Dilma cedeu os anéis para preservar os dedos”. Quer dizer: a presidente entregou ministérios para os partidos aliados, principalmente, o do vice-presidente da República, para que deputados e senadores aprovassem o ajuste fiscal, mantivessem os vetos por ela apostos à pauta-bomba e impedissem o impeachment, caso seja deflagrado o processo.
Isso, contudo, não foi suficiente. Já foram convocadas duas sessões para votar os mencionados vetos, mas os que receberam os anéis, sequer compareceram. Cobraram adiantado e não entregaram o produto. Cometeram de uma só vez duas canalhices: venderam os votos e não votaram como prometido.
Conforme citado no artigo anterior, vereadores, deputados e senadores são eleitos para legislar e fiscalizar (elaborar leis e fiscalizar o Poder Executivo). A maioria deles, no entanto, optou pela chantagem. Antes de forma escondida, como no mensalão e no petrolão. Agora se vendem ao vivo, na frente das câmeras.
No momento, inflação alta corrói salários, desemprego castiga os mais pobres, dólar está nas alturas, Brasil perde o selo de bom pagador, produção industrial caiu 9%, em agosto, em relação ao ano passado. Precisa-se de estadistas, mas quem roubou a cena foram os chantagistas.
De acordo com a Wikipédia, Estadista, na definição de Houaiss, é pessoa versada nos princípios ou na arte de governar, ativamente envolvida em conduzir os negócios de um governo e em moldar a sua política; ou, ainda, pessoa que exerce liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias.
Para Aristóteles, o que o estadista mais quer produzir é um certo caráter moral nos seus concidadãos, particularmente uma disposição para a virtude e a prática de ações virtuosas.
Chantagem é um ato ou prática imoral ou criminosa que consiste em ameaçar revelar coisas ou informações sobre uma pessoa, um grupo, corporação etc., a não ser que o (a) ameaçado(a) cumpra exigências, geralmente para proveito próprio, feitas pelo ameaçador.
Deveriam, se estadistas, ter votado as grandes reformas (eleitoral, previdenciária, tributária, pacto federativo etc.) que o Brasil precisa para crescer com justiça social. Decidiram, todavia, utilizar os votos que receberam do povo para furtá-lo. Frequentemente são acusados de encher os próprios bolsos ou contas no exterior com dinheiro público.
Mas a solução não está, como já disse no artigo anterior, em abdicar do direito, duramente conquistado, de escolhê-los por meio do voto direto e secreto, mas sim, em escolhê-los com foco no bem coletivo e acompanhá-los por meio dos tantos instrumentos garantidos pela lei.