Hoje à tarde resolvi organizar minhas roupas. Resolvi, veja bem — porque, com a chuva caindo sem nenhuma intenção de parar, o plano original era um cochilo honesto, daqueles que a gente chama de “descanso” e acorda totalmente perdida no tempo.
Sempre gostei de fazer faxina ouvindo música.
Quando jovem, se a faxina era pesada, a música precisava ser animada, quase uma trilha sonora de filme de ação.
Hoje, porém, a tarefa era mais delicada: separar as roupas que ficariam das que seriam doadas. Um drama. Sou apegada às histórias que algumas peças carregam. Eu sei, não deveria… mas sou. Fazer o quê? Já evoluí bastante, mas ainda acontece de eu colocar uma roupa na sacola da doação e, minutos depois, resgatá-la às escondidas, como quem salva um amor antigo da deportação.
Enquanto isso, no CD tocavam músicas da década de 70 —
uma coletânea que mandei gravar, porque há anos atrás, a gente não montava playlist, a gente mandava gravar.
Eu cantava, dobrava roupas e fingia maturidade quando começou a tocar Sonhos. Passei a cantar, rir e quase chorar tudo ao mesmo tempo, um talento que desenvolvi com os anos. Sentei na cama, fechei os olhos e senti aquele aperto na garganta: saudade da juventude e, acima de tudo, uma saudade imensa da mamãe.
Quando a música terminou, pausei o CD e pensei: é isso. Vou escrever sobre isso e fingir que foi tudo muito planejado.
Os anos de 1977 e 1978 foram particularmente desafiadores para minha mãe — hoje posso afirmar isso com segurança. Eu tinha acabado de completar quinze anos, morava numa cidade do interior e vivia minha segunda paixão platônica. A primeira foi pelo meu professor de português, que, por elegância e autopreservação, permaneceu no anonimato… até agora.
Essa segunda paixão veio acompanhada de muito sofrimento e muitas gozações. Amor e chacota cresciam juntos.
Meu irmão mais velho não demonstrava qualquer piedade: chamava-me de “retardada”, termo infeliz, porém popular na época. Mamãe percebeu que a situação estava saindo do controle quando eu passei a chorar, não comer e planejar, com riqueza de detalhes, um casamento de véu e grinalda. Hoje penso: haja terapia para uma mãe dessas.
Depois de muito diálogo, paciência e um jogo de cintura — especialmente da mamãe — as coisas foram se ajeitando, até que a fantasia começou a perder espaço para a realidade. Ainda assim, sobrava uma pontinha de esperança de que o cantor Peninha aparecesse em Braço do Norte para um show, me reconhecesse na plateia e, claro, me pedisse em casamento.
Detalhe irrelevante: eu nunca tinha falado com ele (pode rir, eu permito).
O show não aconteceu. O pedido de casamento também não. E assim coloquei um ponto final naquele martírio adolescente. Mas não por muito tempo. Como diz o ditado: rei morto, rei posto. O amor por Peninha foi substituído por outro, ainda mais improvável.
Lindo, forte, educado. Usava terno, mas, sem aviso prévio, surgia com uma capa vermelha e saía voando. Sim, ele mesmo: o Super-Homem. Eu suspirava, sonhava voar em seus braços e nutria uma antipatia gratuita pela tal da Lois Lane, que claramente não o merecia.
Até que um dia eu caí — não dos braços do Super-Homem, mas na realidade.
A sorte é que essas quedas não apagam memórias. Tudo isso faz parte do universo juvenil e dessas experiências vividas com intensidade exagerada, que acabaram me transformando nesta sessentona feliz, especialmente por ter amado homens que só existiram na minha cabeça.
E você, já teve um amor platônico que hoje rende boas risadas?
Nos vemos nas próximas linhas!

