sábado, 17 outubro , 2026

Entre Linhas e Saudade: Histórias que o Tempo Não Apaga 

Nestas duas últimas semanas aqui na Alemanha, senti um pouco da angústia de quem escolhe viver longe do seu país. A distância, além da saudade, também se revela como um risco silencioso: o de não chegar a tempo. 

Duas perdas nos últimos dias me fizeram sentir isso de forma profunda. Pensei na dor de quem não pode simplesmente pegar um voo para a última despedida. Fui tomada por uma tristeza dupla. Duas pessoas que se foram — e eu, tão longe, sem poder me despedir, sem poder levar meu abraço às famílias de quem foi tão presente na minha vida e na vida da minha família. 

Felizmente, para uma delas, a vida me deu a oportunidade de agradecer em tempo. Presenteei com uma coletânea de crônicas, em que uma delas contava a nossa história. 

Nessa crônica, fui fiel ao que vivemos e ao amor que sempre senti. 

Era agosto de 1973. Fazia muito frio. Lembro-me de acordar animada, porque naquele dia iria provar a roupa do meu aniversário de 10 anos. 

Naquela época, roupas novas eram para ocasiões especiais. Muitas vezes, usávamos peças herdadas dos irmãos mais velhos ou das primas mais ricas. Cheguei na casa da costureira esbaforida — fui praticamente voando de bicicleta. Eu adorava aquele lugar. Havia sempre movimento: gente chegando, gente saindo daquele ranchinho nos fundos do quintal. Havia até uma trilha marcada pelos passos das clientes. 

Quando chegou a minha vez, eu — muito, muito magrinha — tirei nove blusas que usava para me livrar do frio. Não me lembro das palavras trocadas, mas nunca esqueci a imagem dela: pegando cada peça, uma a uma, dobrando com carinho, rindo com leveza diante da situação. 

Em novembro passado, na última vez que costurou para mim — após 53 anos de história (dados atualizados), a nossa relação era ainda mais forte, mais madura, mais verdadeira. 

Sebastiana para alguns. Bata para muitos. Batinha, só para mim. 

Foi a minha primeira costureira. Com sua tesoura, agulhas e linhas, costurou muito mais do que roupas. Costurou momentos da minha vida: os desfiles de 7 de setembro, as apresentações na escola, as roupas de missa, as festas, os bailes… e, mais tarde, as roupas dos meus filhos e do meu marido. 

Ela acompanhou a minha trajetória. Nunca me entregou apenas peças feitas com capricho — entregou também, em tantos momentos, seu ombro amigo e seu tempo precioso para me ouvir. 

Ao longo de mais de cinco décadas, deixei de ser apenas cliente. Tornei-me amiga. Dela e de toda a sua família. 

Tive ainda a honra de recebê-la na minha casa, para um ensaio fotográfico de sua marca, hoje reconhecida no mercado. Foi um dia de imensa felicidade. Entre um clique e outro, eu me via admirando-a. 

E eu não fui exceção. Somos muitas — clientes de décadas, histórias entrelaçadas, afetos que o tempo só fortaleceu. 

Não foi por acaso que, em meio a tanto movimento naquele início, seu marido acabou dando um nome tão simbólico: “A Toca da Formiga”. Um nome que nasceu quase sem querer, mas que traduzia bem o trabalho incansável e dedicado que ali existia. 

Hoje há vitrines, presença nas redes sociais e reconhecimento. Mas a essência permanece intacta: o atendimento acolhedor, o respeito, o amor em cada detalhe. 

E talvez seja isso que mais me consola neste momento. Porque ela não costurou apenas tecidos. Costurou o que há de mais importante na vida. 

Com fios de ouro, construiu não só uma marca empreendedora que seguirá seu legado, mas uma família. Uma família que carrega, com orgulho, sua história — desde a pequena trilha aberta no quintal pelas primeiras clientes até os caminhos que hoje percorrem juntas. 

Caminhos marcados por pegadas tão fortes… que jamais serão apagadas. 

 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

 

 

 

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