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Um estudo apresentado na sessão plenária da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), considerado o maior congresso de oncologia do mundo, trouxe uma nova perspectiva para o tratamento do câncer de pâncreas, um dos tumores mais agressivos e com menor taxa de sobrevida. Os resultados do estudo RASolute 302, que avaliou o medicamento oral Daraxonrasibe, foram recebidos pela comunidade científica como um dos avanços mais importantes da área nas últimas décadas.
Para o oncologista clínico da Ortoimagem, em Tubarão, Dr. Kélio Silva Pinto, os dados representam um momento histórico para a especialidade.
“É um daqueles resultados raros na carreira de um oncologista. O câncer de pâncreas sempre foi o nosso maior adversário e, pela primeira vez, uma terapia-alvo oral superou de forma tão expressiva a quimioterapia nesta doença. A comunidade oncológica mundial recebeu esses dados como uma mudança de era”, afirma.
Sobrevida praticamente dobra com novo medicamento
O estudo, em fase 3 — considerada a etapa final e mais rigorosa das pesquisas clínicas — envolveu cerca de 500 pacientes de diferentes países.
Os participantes foram divididos entre o tratamento convencional com quimioterapia intravenosa e o uso do Daraxonrasibe, administrado em comprimido uma vez ao dia.
Os resultados mostraram uma sobrevida global mediana de 13,2 meses entre os pacientes que utilizaram o novo medicamento, contra 6,7 meses no grupo tratado com quimioterapia, praticamente dobrando o tempo de sobrevida.
Além disso, o medicamento retardou significativamente a progressão da doença e apresentou um perfil de segurança considerado manejável pelos pesquisadores.
“Em oncologia, ganhos de poucas semanas já costumam justificar a incorporação de um tratamento. Dobrar a sobrevida em câncer de pâncreas metastático é algo que a nossa geração de oncologistas nunca tinha visto”, destaca Dr. Kélio.
Terapia atua em um dos principais alvos da doença
O Daraxonrasibe atua sobre a proteína RAS, alterada em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.
Durante décadas, essa proteína foi considerada um alvo praticamente impossível de ser tratado por medicamentos. A nova molécula integra uma classe inédita de terapias conhecidas como inibidores multisseletivos de RAS ativa.
Segundo o oncologista, o impacto da descoberta pode ir além do tratamento do câncer de pâncreas.
“O que foi validado vai muito além do pâncreas. Provou-se que é possível atacar diretamente a RAS ativa, e essa mesma estratégia já está sendo testada em câncer de pulmão e intestino. É a abertura de uma avenida terapêutica inteira.”
Os primeiros resultados da molécula também foram publicados no New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais prestigiadas da medicina mundial.
Quando o medicamento poderá chegar ao Brasil?
Apesar dos resultados animadores, o especialista ressalta que o tratamento ainda não está disponível no país.
Nos Estados Unidos, a agência reguladora FDA autorizou um programa de acesso expandido ao medicamento e o pedido de registro definitivo está em andamento.
No Brasil, entretanto, o Daraxonrasibe ainda precisa obter aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) antes de ser disponibilizado aos pacientes.
“Meu papel como oncologista é acompanhar de perto a ciência para que, no momento em que a incorporação acontecer, os pacientes da nossa região tenham acesso qualificado a ela e, ao mesmo tempo, ser honesto sobre o presente. Hoje, a quimioterapia segue sendo o tratamento padrão e efetivo disponível, e ninguém deve interromper ou recusar tratamento à espera de uma novidade”, pondera.
Diagnóstico precoce continua sendo essencial
Embora os avanços tragam esperança, o médico reforça que o diagnóstico precoce permanece sendo a principal ferramenta para aumentar as chances de tratamento.
Entre os sinais de alerta estão:
- perda de peso sem causa aparente;
- pele e olhos amarelados (icterícia);
- dor abdominal persistente irradiando para as costas;
- surgimento recente de diabetes após os 50 anos.
Segundo o especialista, esses sintomas devem ser avaliados por um médico.
“Nenhum medicamento, por mais revolucionário, substitui o diagnóstico em tempo oportuno”, conclui.

