domingo, 15 fevereiro , 2026

‘Expliquei que tudo vai passar e vamos poder brincar juntos novamente’, conta emocionado Saul, médico de Criciúma

18 de março de 2020. 7 horas. Esse pode ter sido um dia comum para qualquer um de nós mas, com certeza, ficará marcado na lembrança do médico Saul Pereira Junior. Médico, acostumado com os altos e baixos da profissão, ele teria que lidar agora com mais uma questão: isolamento praticamente total da família.

Na linha de frente como chefe do hospital de campanha da Unimed em Criciúma, ele se considera potencialmente infectado, por isso segue uma rotina solitária dentro de casa. “Trabalho de 12 a 14 horas dentro do hospital, me higienizo e troco de roupa no fim do turno, me alimento em algum lugar na rua que possa pedir a comida, meu carro só eu entro porque pode estar contaminado, só ando de janelas abertas dia e noite”.

E quando chega em casa é mais uma rotina de cuidados e isolamento, porque antes, quando isso não ocorria, sua família tipicamente brasileira o esperava calorosamente. O filho grudava em suas pernas, mas agora tudo mudou.

“Chego em casa, uso o banheiro que fica bem próximo da porta, ali me higienizo, troco de roupa e vou descansar. Hoje meu quarto foi montado na sala, onde durmo com todas as portas e janelas abertas e com roupas de cama exclusivas para mim”.

Saul é casado, sua esposa é médica pediatra. Mas como tem imunossupressão, não pode correr o risco de pegar o coronavírus. A falta da família o emociona muito quando ele fala. “Tenho três filhos, a Gabriele, de 19 anos, o Benjamin, de 5, e a Isadora de 7 meses, e não posso ter contato com eles nem com minha esposa, pois não posso me tornar um vetor”.

Tudo na casa está separado, desde os talheres e qualquer objeto que usa. Mas o mais difícil mesmo está sendo a distância forçada da família. “Temos um perímetro de uns 3 metros onde a família não pode passar. Dia desses meu filho me jogou um aviãozinho para demonstrar a saudade escrito ‘Beijo pai. Melhora’. Ele ainda me disse que não podia chegar até mim porque eu estava contaminado, mas expliquei  que tudo isso vai passar e vamos poder brincar juntos novamente”, conta o médico com a voz embargada.

Por diversas vezes, Saul afirma que como potencialmente exposto não pode expor a família, não pode ser vetor.

Por fim, faz um pedido: “Fiquem em casa para não se encontrarem na situação em que me encontro hoje, afastado da família. Espero que a população entenda, faça o isolamento social para que consigamos passar por essa crise o mais rapidamente possível. Hoje é uma crise de saúde, mas se transformará em uma crise econômica porque tudo está parando. Essa vida de isolamento é necessária, mas estamos fazendo por todos vocês. Por nós e por todos vocês. Fiquem em casa!”

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