domingo, 5 julho , 2026

Exposição na internet pode afetar emocional

Em alguns casos, vítimas podem não saber lidar com tamanha repercussão e desenvolver problemas psicológicos, a ponto de atentar contra a própria vida

Tubarão

O Estado foi abalado pela notícia da morte do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), Luiz Carlos Cancellier de Olivo, na manhã de segunda-feira. Afastado do cargo, ele foi encontrado morto no vão central de um shopping no Centro de Florianópolis.

Nascido em Tubarão, Cancellier, que foi sepultado ontem na capital, e outras seis pessoas chegaram a ser presas em setembro durante a Operação Ouvidos Moucos, da Polícia Federal, que apura desvio de recursos em cursos de Educação a Distância (EaD) na Ufsc. O reitor afastado do cargo era suspeito de tentar interferir nas investigações internas feitas pelo corregedor-geral, Rodolfo Hickel do Prado.

Assim que a notícia se espalhou, diversas entidades emitiram nota de pesar, muitas delas relacionando o suicídio à forma como o processo foi conduzido. Uma das críticas foi feita pelo procurador-geral do Estado, João dos Passos Martins Neto.

“As informações indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida. Que o legado do professor seja também o de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes”, diz trecho do texto.

A OAB SC também manifestou crítica semelhante. “É chegada a hora de debater a forma espetacular e midiática como são realizadas as prisões provisórias no Brasil, antes sequer ouvido os envolvidos, que dirá sua defesa. Reputações podem ser completamente destruídas. Para pessoas inocentes, o prejuízo é irreparável. Cabe-lhes a vergonha, a dor, o sentimento de injustiça. O peso destes sentimentos pode ser insuportável”, afirma um trecho do documento.

Muito desta espetacularização criticada nas duas notas é hoje impulsionada pela internet. Qualquer fato é capaz de se espalhar a uma velocidade jamais vista antes. A psicóloga e professora do curso de Psicologia da Unisul, Rosane Romanha, explica que nem todos conseguem lidar com tamanha repercussão e exposição. Em alguns casos, isso leva ao isolamento, aumento da ansiedade e a um quadro depressivo rapidamente.

 

Maioria dos casos de suicídio podem ser evitados
Com depressão grave, uma pessoa deixa de ver saídas para o seu problema. “É como se estivesse com óculos de lentes pretas. Só enxerga o pior. Ela quer se ver livre do sofrimento, e o suicídio aparece como uma forma de lidar com isso”, afirma Rosane. Frustração também é outra causa que pode levar alguém a atentar contra a própria vida.
Mas quem tem pensamento suicida nem sempre fala sobre isso. A psicóloga diz que é preciso estar alerta aos sinais, como conversas sobre despedida e isolamento. “Pensamento de morrer não é comum, é sintoma. O ideal é fazer perguntas, do tipo ‘se a vida dela não vale a pena’”, ensina Rosane.
Cerca de 90% dos casos de suicídio podem ser evitados, desde que a pessoa tenha os acompanhamentos adequados. “É uma fase que vai passar, mas não passa sozinha”, afirma.

 

Comentários na internet podem ser considerados como calúnia
Na rede, muitos dos comentários ignoram se uma pessoa é inocente ou não. O que se propaga pode ser suficiente para destruir a reputação de uma pessoa. A advogada Karine Gomes Vieira diz que imputar crime a alguém que não o cometeu é classificado como calúnia pelo Código Penal. Quem compartilha este tipo de conteúdo também pode ser enquadrado no mesmo crime de calúnia.
A pena é detenção de seis meses a dois anos e multa. “Não há possibilidade de o agente ser preso, pois o regime inicial é o semiaberto, aplicado quando o réu é condenado à pena de detenção de até quatro anos. Somente crimes punidos com pena de reclusão têm o cumprimento em regime inicialmente fechado”, explica.
No regime aberto a pena é cumprida em casa de albergado ou em estabelecimento adequado, como, por exemplo, a residência do réu, diz a advogada. Ela diz que a pena mais branda aumenta a sensação de impunidade, o que pode ser mudado com leis mais severas. Karine afirma ainda que uma condenação por calúnia não impede que o réu responda também na esfera civil por danos morais.

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