quarta-feira, 24 junho , 2026

Facebook, controvérsias sobre o amor

Do Facebook, edito diálogo ocorrido em Masculino. Cristiane Dandolini Pickler publica: “Sobre os relacionamentos, o amor… Parece-me que o capitalismo também o tomou. Jorge Luis Borges: ‘O amor é amizade e sexualidade. Para que o amor seja duradouro é necessário uma conversa contínua, uma troca de duas vozes sempre redescobrindo a si mesmas. Não é um contato. Na atualidade o amor quer liberdade tipo: ‘Você me agrada, ficamos juntos, você me cansa, eu o dispenso. Experimentamos o outro como um produto’. [Hoje], o amor é uma aventura de que não queremos nos privar, mas com a condição de que ela não nos prive de nenhuma outra”.

Marlusa Tonial: “Muito pertinente. É o perigoso caráter utilitário que as coisas vêm tomando. Acredito que isso não serve para relacionamentos, amores, amizades”. Cristiane: “O amor (não o romântico, mas o citado) exige reciprocidade, não só porque declarar o amor significa uma demanda, mas também porque aponta que, no outro, algo faz com que ele seja amado. Muitos preferem viver isolados, com seus sintomas, a se lançarem ao outro, com medo de serem apenas desejados, admirados, e não verdadeiramente amados. Desejo satisfeito, descartado…”.

Rui Coelho: “Interessante… Estava pensando: Estará sendo dispensado o amor, priorizando-se a ‘zona de conforto’ da individualidade?”. Provoco: “Ainda bem. Já pensou se o amor continuasse como um arranjo de família católica medieval?”. Tania Abreu: “O amor […] toma a vida, o sexo, os sentimentos por inteiro. Nada mais falta. Já relacionamentos, esses têm espaço para muitos; a individualidade fica preservada e os sentimentos são contidos. É o comum de se encontrar. O amor anda raro”. Manifesto-me: “O amor monogâmico, disciplinador, sim. O amor demarcado pelo concílio de Trento ditou essa forma irreal, e desde então as pessoas submetem-se a ela, até acontecer a sua ‘naturalização’. Isso é uma disciplina, não é um afeto”.

Lucas O. Alves: “Gostei da tua provocação. Em perspectiva histórica, nunca houve momento tão progressista no tocante às liberdades individuais e possibilidades de enlaçamentos afetivos. Isto não necessariamente rebaixa o nível do amor, apenas torna suas formas mais plurais. Contudo, classificar qualquer experiência de gozo como ‘amor’ tem sido algo rotineiro na sociedade contemporânea (algo que Bauman discutiu em amor líquido), possivelmente gerando sintomas individuais e sociais como a angústia e o descomprometimento ético”. Cristiane: “Angústia, descomprometimento ético, desrespeito, objetificação do outro… Concorda? Afinal, também somos resultado da cultura. Vivemos em sociedade. Adaptar-se não é aceitar”. Lucas: “Concordo. Só temos que tomar cuidado para, com esta crítica, não fomentar discursos conservadores que pregam o retorno a antigos valores. O amor sofre o efeito do significante e só faz sentido nas interações culturais. É um valor mutável, com variância histórica e individual”. Cristiane: “Discursos conservadores, retorno de valores antigos… Mas o outro objetificado, produto descartável nos discursos, relacionamento modernos… Preocupa, assusta”. Respondo a Lucas e Cristiane: Desejo com comprometimento ético? Ora, desejo é conteúdo essencial. Ética é circunstancial, ideológica. Cultura pede castração (não sou o dono do mundo), mas não pede disciplina, submissão às instituições. A sociedade precisa de democracia, vida plural, aberta. Isso conflita com a institucionalização dos desejos. Menos concílio de Trento, mais Maio de 1968”. Lucas: “A moral é ideológica; a ética é circunstancial e humana, assim como o desejo. O comprometimento ético com o outro é necessário para interditar o gozo. Sem ele, o outro não pode ser reconhecido como um outro do laço social ou um outro enquanto objeto de desejo, mas apenas como objeto de gozo, reificado para consumo e satisfação imediata. E quanto a Maio de 68? Sim, precisamos de mais. Urgentemente! Concílio de Trento significa a retenção do desejo; Maio de 68, a sua democratização”.

Divirjo de Lucas: “Moral é pressão social; ética é deliberação de foro pessoal. Ambas são ideológicas. E, sim, há que existir comprometimento, mas qual? O fundado na tradição católica? O libertário de 68? Um que seja eleito entre as partes interessadas? E se me falam em sociedade: Que preceitos me alcançarão? Eu os polemizarei, ou os acatarei obedientemente? A reificação aludida, a coisificação, é não compreender que se não faço escolhas, sou coisa produzida. Há que se interditar (castrar) o gozo que objetifica, mas eu me interdito. Se me deixo interditar pelos costumes, alieno-me. Aí eu não estaria respeitando o outro, mas acatando normas sistemáticas”. Lucas reitera que “o comprometimento entre as partes deve prevalecer”. Retomo: “Comprometimento derivado da vontade das partes, interveniência dos envolvidos sobre a relação. Não é o comum. As pessoas se ajustam às molduras da sociedade. Não exercem vontade; obedecem. Servidão voluntária (La Boétie). Os voluntários da obediência ‘gozam’ as circunstâncias que os acachapam. Submetem seu gozo à disciplina, sem diferenciar contenção civilizatória de disciplina institucional”. Lucas citou Bauman, pensador da modernidade líquida: certezas e relações tornam-se fluidas, instáveis. Reitero: assim é melhor. A antiguidade era sólida em decorrência de violência institucional sobre as pessoas. Para ficarmos no amor: era submetido à vontade do patriarca, da igreja católica, do Estado, que prescreviam conteúdo e forma, vigiando e punindo desvios. Borges e Bauman defenderam as formas passadas. Divirjo. Penso no enlace amoroso. Antes: papéis, proclamas, cerimônias. O Estado fiscalizava casamento e separação. A juventude pratica outros caminhos: declara-se em compromisso sério pelo Facebook. Quando acaba o gosto, o afeto, o amor, cada qual sensatamente se vai. E a vida continua. Livre, leve e solta. Ainda bem.

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