Se me fosse dada a tarefa de construir um mapa cultural do Brasil e ali registrar as principais festas religiosas tradicionais que ocorrem na vastidão territorial do país, com absoluta certeza, a Festa do Divino Espírito Santo seria de longe a manifestação de maior incidência cultural em todos os 26 estados da federação e Distrito Federal, desde o Amapá até o Rio Grande do Sul ou de Sergipe à Amazônia. Se esta representação cartográfica fosse sinalizada, simbolicamente, com uma emblemática bandeirinha vermelha (a do Divino) em todos os municípios brasileiros que celebram o Espírito Santo, de um total de 5.565, o resultado quantitativo seria surpreendente. Um Brasil inteiro vestido de Espírito Santo tal é a forte presença do culto e sua celebração por terras de Vera Cruz.
Popularizado como “Culto ao Divino”, tem especial visibilidade no sul do Brasil, sobretudo em Santa Catarina, onde a contribuição açoriana foi elemento basilar na construção da identidade cultural.
Sua intensa comemoração alimenta uma tradição de 265 anos que, mesmo modificada na passagem do tempo, se faz sentir em plenitude por todo o litoral e, também, na serra catarinense por onde foi levado por tropeiros paulistas, gaúchos e insulares açorianos.
A Festa do Espírito Santo constitui a maior expressão de transnacionalidade cultural a partir da emigração açoriana do século 18 para o sul do Brasil. Paradigma de excelência de uma situação imigratória cujo estudo, apesar de ter um recorte individual, é um ótimo exemplo na abordagem da complexidade e da diversidade da cultura brasileira e, ainda, na compreensão do fenômeno social da mobilidade humana.
“O que em geral posso dizer dos habitantes desta Capitania he, que elles são mui fieis ao seu soberano, muito inclinados a todos os actos da nossa religião, tanto públicos como particulares, às festividades da Igreja, e às procissões, e principalmente às festas do Espírito Santo… Se evidente que o caracter usos e costumes dos ascendentes, no todo ou em parte, se havião de transmitir aos descendentes dos colonos que forão das Ilhas dos Açores desde 1748 até 1753( …)”.
As mais antigas referências sobre a existência da Irmandade e a celebração da festa em Florianópolis datam de 1773, ano da instituição da Irmandade do Divino Espírito Santo da Paróquia Nossa Senhora do Desterro e de 1776, ano da realização da primeira Festa do Espírito Santo. Somente em 1806 aconteceu a primeira Festa com Coroação, sendo coroado o açoriano Capitão Manoel Francisco da Costa.
Passaram 237 anos, a festa não arrefeceu. Cresceu e se expandiu na região da Grande Florianópolis e para além, salvaguardando a sua memória cultural e evitando que enfraqueça a sua celebração. Ganhou, com certeza, no maior congraçamento das famílias, na imensa participação popular marcada pela emoção e pela fé, intensificando a vivência da religiosidade, a propagação do culto ao Espírito Santo e mantendo viva a tradição de muitas gerações.
Neste 19 de maio é o Domingo de Pentecostes, domingo da “pombinha”, da celebração do Espírito Santo. A bandeira do Divino, desde a Páscoa, percorre povoados, vilas e cidades, junto ao mar ou a serra, num grande périplo onde não falta o tambor,a viola, a rabeca, a cantoria dos foliões e o pedido de esmola para fazer a Festa em louvor ao Divino Espírito Santo.
Por todo o estado de Santa Catarina, a cada ano, na Missa da Coroação, assiste-se a renovação de um compromisso de fé. São os caminhos do Divino abertos por naus açorianas ou baleeiras aladas no distante século 18. Trilhá-los é reacender junto ao espelho da memória parte de um caminho do passado, imagens de realidades de agora, ancoradas nos valores culturais e na religiosidade telúrica que entre signos sagrados e profanos, emerge com a força de resistência nascida da alma coletiva ou, intencionalmente, (re)inventada e que, mesmo assim, tem sua relevância na construção da identidade.
As mundividências de uma açorianidade sobrevivente por ritos ancestrais de oralidade encontram na Festa do Divino Espírito Santo o seu pulsar e o rosto de sua identidade. Eis, o RG da cultura açoriana temperado com o jeito maneiro de ser da nossa gente catarina.
Viva o Divino Espírito Santo!

