sábado, 20 junho , 2026

Funcionário de restaurante faz ‘quentinha’ de graça para mãe com filho autista que não se alimentava há dias

A estudante universitária Deborah Figueiredo, de 30 anos, levou o filho Antônio, de 7, que é autista, para um tratamento experimental oferecido por uma clínica em Florianópolis, Santa Catarina.

O tratamento consiste em melhorar o foco e a atenção de indivíduos com o Transtorno do Espectro Autista, além de reduzir o nível de estresse e ansiedade através de sons de baixa frequência e vibrações induzidas.

Mãe e filho moram no Rio de Janeiro e tiveram que fazer uma longa viagem até a capital paranaense. Deborah conta que a mudança brusca de rotina, mesmo que por poucos dias, não foi fácil para Antônio. “Para um autista, sair da rotina é muito difícil. Uma coisa simples como uma viagem mesmo para perto, desorganiza o autista internamente, e ele sofre com extrema ansiedade.”

Antônio tem seletividade alimentar, e como eles estavam longe de casa, sua mãe não conseguiria fazer a comidinha de sempre, na qual o garoto está acostumado.

Ela o levou em diversos restaurantes na esperança de que o filho gostasse de alguma coisa, e se alimentasse bem. “Tentei dar de tudo pra ele, fomos ao shopping, em restaurantes com buffet a quilo, crente de que ele eventualmente aceitaria comer alguma coisa; eram vários pratos que iam direto para o lixo porque ele não queria nada… Já estava começando a ficar sem dinheiro”, relata Déborah.

Na última tentativa do dia, eles foram ao Restaurante Samuara, no Floripa Shopping. A mãe colocou macarrão com feijão no prato e, desta vez, Antônio finalmente comeu tudo – limpou o prato e ainda queria mais, faminto, pois não comia direito há dias.

Como estava tarde, toda a comida do buffet havia sido recolhida, de modo que Déborah não conseguiria colocar mais. Foi quando um funcionário surgiu da cozinha e percebeu seu desespero pelo macarrão e feijão recolhido. Sensível ao problema, ele voltou à cozinha, e preparou uma ‘quentinha’ enorme para Antônio.

“O funcionário viu que minha situação estava crítica. Não era pela questão financeira em si. Graças a Deus não passamos necessidades. Mas a situação de desespero de tentar de tudo, seu filho não comer, porque está tudo diferente, ele está angustiado, você acaba ficando angustiada também, mas quer pelo menos que seu filho se alimente bem! Ele estava muito atordoado pela quebra de rotina, estava inflexível, estressado, ansioso… tentei de tudo ali na praça de alimentação”, desabafa.

pós preparar a marmita, Christian, o rapaz da cozinha, afirmou à Déborah que ela não precisava pesar, e nem pagar pela comida.

“[Você] não imagina minha felicidade nessa hora. São coisas que parecem bobas, mas esse olhar humano, essa empatia e gentileza, pra gente que é mãe de autista e luta tantas batalhas no dia a dia… cada gentileza dessa vem como um abraço, é um alívio.”

No dia seguinte, Déborah alugou uma casa que dava para cozinhar, e ela pôde preparar o prato favorito do filho: abobrinha com quiabo. “Autistas têm questões sérias de seletividade alimentar. Por isso estar fora de casa, onde não encontra exatamente o que come todos os dias, separado da mesma forma no prato, pode virar um caos.”

Com a possibilidade de cozinhar, a questão da alimentação de Christian foi resolvida até o final do tratamento.

No último dia em Florianópolis, mãe e filho retornaram ao Restaurante Samuara e lá estava Christian para atendê-los uma vez mais. “Um amor de pessoa, compreensivo e gentil, de novo nos deixou a vontade para fazer o prato e adivinhem, disse que nem precisava pagar… assim, a troco de nada, ele apenas viu que eu estava precisando de ajuda, e ajudou da maneira que podia.”

Déborah não tem dúvidas de que ‘tropeçou’ em um sujeito que lhe dá razões para acreditar na vida. Aqueles indivíduos que ajudam sem querer nada em troca, são proativos, fazem tudo de boa vontade, em gestos de puro carinho e empatia. “Quem é mãe de uma criança com necessidades especiais sabe que tudo é mais difícil.  É mais conveniente nos julgar, achar que se trata apenas de uma criança birrenta e pais falhos. Mas aí me deparo com alguém disposto a ajudar de boa vontade. É muito gratificante.”

“Essa foi uma das poucas vezes que alguém de fora, ao invés de lançar esse olhar que já estamos acostumados, lançou foi uma mão amiga, um apoio. Quem dera fosse sempre assim. Muito obrigado ao Christian por sua gentileza e sensibilidade”, concluiu Déborah.

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