Víctor Daltoé dos Anjos
bacharel em Geografia pela Ufsc victordaltoe@gmail.com
Estados Unidos bombardeou, apoiado por França e Grã-Bretanha, alvos específicos em território sírio. Tudo justificado – nas bravatas adolescentes do presidente do EUA, Donald Trump – como resposta ao suposto ataque químico ordenado pelo governo sírio de Bashar Al-Assad contra redutos rebeldes. Essa salada confusa ainda teve como molho e acompanhamento as reiterações do autocrata russo Putin, de que manteria firme apoio à ditadura síria.
O estardalhaço geopolítico esteve mais relacionado à necessidade dos governantes envolvidos retocarem a sua maquiagem na política interna do que de avanços maiores no conflito sírio. Os grandes veículos mundiais não deixaram de perceber isso em suas análises preciosas e detalhadas. Mas, o prato principal servido foi sempre o mesmo: há uma “nova Guerra Fria” entre Estados Unidos e a Rússia, utilizando do campo de batalha sírio para seu conflito ‘quente’. Mas talvez a sobremesa, que nem todos serviram, mereça mais atenção. Outros atores estão cozinhando suas rivalidades, e não é em fogo brando.
O Irã já havia mostrado há tempo a que veio, implantando suas forças em território sírio. A teocracia islâmica oferece apoio ostensivo ao poder de Assad, assim como fez o grupo fundamentalista libanês Hizbullah. Ambos se declaram abertamente inimigos do Estado de Israel. O falatório pedante entre Estados Unidos e Rússia ensurdeceu e tornou nebulosa a compreensão desse cenário, o que não impediu que Israel colocasse as mangas de fora.
Assim, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu ordenou um ataque contra baterias antiaéreas iranianas em território sírio, com apoio americano, depois de meses de constantes atritos entre Israel e Irã. As relações entre ambos estão se deteriorando, e Israel passa a rever suas relações com a Arábia Saudita, rival regional dos iranianos. Um inimigo em comum pode, como fica evidente, unir até atores que antes não se aproximavam.
Essa pode ser a sobremesa que segue o prato principal da nova ‘Guerra Fria’. Com tantos atores rivais no palco, apetite é o que não falta.

