segunda-feira, 16 março , 2026

Infância, brincadeira e a urgente necessidade de desnaturalizar a tecnologia

Mas, conforme destacou o relatório do Conselho Internacional para Estudos da Ciência Política, a mudança tecnológica e a inovação podem não ter efeitos socialmente benéficos se o contexto cultural, político e social não estiver preparado para absorvê-las e incorporá-las, e para atingir as transformações estruturais que serão exigidas. Isto porque, a ciência e a tecnologia não são fatores independentes, nem tampouco neutros e, por isso, sua interferência deve considerar a formação histórica, política, social, religiosa e cultural da sociedade; ou seja, deve considerar todas as variáveis da equação civilizatória contemporânea (BAZZO, 2019).

Porém, infelizmente este não é um fato claro e abertamente disseminado. E, muitas vezes, as instâncias educacionais e sociais em cujo escopo deveria estar à divulgação e reflexão sobre estes temas, não trabalham com conhecimentos e aculturamentos que promovam uma atuação crítico-reflexiva nos indivíduos.

A corrida incessante é somente para proporcionar às crianças e adolescentes o contato cada vez maior com a tecnologia. Perde-se dessa forma, um leque de possibilidades que tirariam o indivíduo de seu pequeno mundo e o remeteriam a uma dimensão maior, onde a análise, a crítica, a reflexão, o diálogo, a contestação e a interação, passariam a fazer parte de sua realidade; prática esta que deveria ser introduzida e desenvolvida desde a educação infantil, de forma gradativa e adequada a cada faixa etária.

Na educação infantil, por exemplo, a brincadeira, por suas características e peculiaridades pode favorecer a reflexão dialógica sobre C&T, pois nesta etapa de vida as crianças estabelecem muitas relações e interações e, nessa convivência, se descobrem e constituem como seres humanos sociais. Assim, refletir dialogicamente no brincar não denota ensinar ciência ou conteúdos a ela inerentes, nem tampouco, introduzir conceitos e muito menos aparatos tecnológicos, mas significa brincar com os produtos da ciência e da tecnologia e deixar emergir das crianças, suas percepções a respeito dele.

Trata-se de desnaturalizar a tecnologia e mostrar que ela não faz parte de nós e que deve estar a nosso serviço e não o contrário.

Trata-se de refletir sobre seus ônus e bônus, avanços e limites, sobre ética, responsabilidade e coletividade. Ou seja, de fazê-los entender que a tecnologia é obra do homem e não da natureza e, por isso, é cheia de defeitos, intenções e manipulações.

Embora algumas brincadeiras mantenham-se vivas durante muitas gerações, nota-se que há uma evolução natural neste processo; algumas vão sendo suprimidas, modificadas e outras vão surgindo. Tais mudanças ocorrem em virtude das transformações ocorridas na sociedade. Neste sentido, percebe-se que atualmente as crianças passaram a adotar novos hábitos – sobretudo em função do desenvolvimento e aumento da abrangência da internet e dos equipamentos eletrônicos, como computadores, jogos e celulares – e isto impacta em suas formas de brincar. Segundo Amaral e Paula, cada vez mais as crianças “entram em contato com estes aparelhos desde muito pequenas e logo já estão inseridas neste mundo de consumo e batalhas virtuais, que vem a reforçar o individualismo presente nas sociedades liberais burguesas” (2007, p. 326).

Como não podemos (e nem temos como) abolir o uso dos recursos tecnológicos, torna-se imprescindível orientar os pequenos quanto ao seu uso para que esses dispositivos e o acesso livre às informações possam contribuir de forma positiva e servir como um aliado nos seus processos de desenvolvimento. Principalmente, porque a brincadeira apresenta-se como um momento propício e preparado para estimular a criança a exercitar sua capacidade reflexiva e crítica sobre os brinquedos – neste caso, instrumentos e signos da Ciência e Tecnologia.

Há uma postura política, ética e estética no brincar, além de prazer, o estranhamento, o desconforto, a contradição necessária à emergência de novas práticas, diálogos e olhares, imprescindíveis à reinvenção da vida. Por isso, a brincadeira é um espaço muito apropriado a reflexão dialógica sobre C&T, suas implicações sociais e entrelaçamentos.

 

*Consultora em atividades relacionadas a Inovação e Empreendedorismo e CEO da Integrative – Desenvolvimento Organizacional e Profissional. Possui Doutorado em Educação Cientifica e Tecnológica, Mestrado em Educação, Graduação em Serviço Social e Graduação em Pedagogia. Estuda as implicações sociais da Ciência e da Tecnologia, no intuito de debater sob uma perspectiva crítica, a equação civilizatória contemporânea e fomentar uma postura reflexiva na sociedade.

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