domingo, 4 outubro , 2026

Lugar de fala, é preciso falar sobre isso

Algumas controvérsias tomam lugar nos debates públicos. Nem sempre alcançam toda a Sociedade, mas, se encerram importância, merecem atenção. No momento, discute-se quem pode discursar em nome de quem.

Há uma “moda” chamada lugar de fala: um grupo social teria a compreensão de sua situação no mundo, então, desse lugar que possibilitaria a leitura “real” dos próprios predicados, decorreria a titularidade exclusiva do lugar de fala.

Segundo esse entendimento, se uma minoria não falar por si mesma, terá o seu dizer “traduzido” com ou sem má intenção, mas, de toda forma, distorcido. As falas, portanto, não podem ter um intercessor, ou um “procurador”.

“Eu quero falar, não quero ser falado”, dirá quem se há com validade para reivindicar. Diz com razão, embora seja evidente que se alguém se manifesta em nome próprio é porque já abriu uma brecha nos espaços sociais dos falantes.

A “moda” lugar de fala construiu uma narrativa que objetiva, em nome de uma posição pretensamente exclusiva, desautorizar o outro que, carente de um alvará de origem, estaria deslegitimado para dizer sobre uma causa.

A questão é que a luta para que todos falem é de todo mundo. É inaceitável imaginar-se a substituição de alguém, mas é igualmente impróprio que alguém se insurja contra sua fala ser repercutida por quem concorde com ela.

As hierarquias delimitadoras de expressão foram erigidas por autoritarismos diversos; o combatê-los não atine somente às suas vítimas. As condições sociais demarcadas não são causa que interessa precipuamente aos injustiçados.

Relações sociais injustas, não obstante vitimarem mais objetivamente certos grupos, subjetivamente insultam toda mentalidade libertária. Lutas igualitárias, pois, não têm posse, ainda que a desigualdade faça vítimas “preferenciais”.

A afirmação de situações no mundo, é certo, é feita a partir das diferenças reais que existem na ocupação dos lugares de poder. Quem os ocupou no correr na História sempre produziu justificativas para o estado de disparidades.

Relações sociais díspares produzem e abrigam disparidades, valorizam e reproduzem dessemelhanças. E as vítimas das desigualdades, no geral das vezes, não lutam para dar-lhes um fim geral, mas para o sucesso num drible particular.

Resta que os sistemas de dominação subsistem, em boa parte, com a colaboração de seus próprios dominados. O lugar de fala “original”, numa tal situação, estaria “traído”, já, pelo vício de comprometimento de um titular colaboracionista.

Então, seja se consorciando com quem queira se livrar de injustiças, seja à revelia do oprimido desavisado, seja contra a vítima que colabora, a luta por franquias libertárias é direito e obrigação de toda e qualquer mentalidade livre.

Quem quer que deseje manifestar-se contra modos opressivos está no lugar de fala adequado para realizar sua manifestação. As injustiças da vida, todas as injustiças da vida não são reduzíveis a situação de propriedade.

Hierarquias sociais oprimem, opressões reafirmam hierarquias sociais. Hierarquias distinguem. Não pode haver nenhuma distinção na construção de igualdades. Nem o sujeito mais violado está melhor posicionado para essa fala.

A luta para democratizar possibilidades de falar não será pretextada como uma falácia da autoridade: ao invés de reivindicar a ampliação de atores falantes, apela-se a uma determinada condição no mundo para discorrer sobre ela.

Talvez se careça é de escuta. Muitos do que estão em posição de falar supõem-se com o saber adequado para dizer sobre o outro. Podem saber, ou não. Mas o outro certamente tem o que dizer e o direito de ser ouvido.

Como a fala tem que ser franqueada, igualmente, a escuta deve ser exercitada. Mais por narcísicas pequenas diferenças do que por legitimidade, disputa-se a titularidade de narrativas, deslembrando-se de contemplar outras vozes.

A disputa pelo lugar de fala é uma disputa de poder. É legítimo disputar poder. Talvez não seja conveniente, contudo, contender com aliados na ampliação de possibilidades de mais distribuição de poder. É preciso falar sobre isso.

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