FOTO Campanha de Lula Divulgação Notisul
Tempo de leitura: 5 minutos
Combater o racismo, a xenofobia e qualquer forma de preconceito é obrigação de quem ocupa a Presidência da República. Mas essa responsabilidade também exige cuidado para que o discurso contra a intolerância não produza novas generalizações.
Nas recentes passagens do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por Santa Catarina, esse limite voltou ao centro do debate.
Em junho, durante evento em Itajaí, diante de poucas dezenas de apoiadores, Lula pediu que os catarinenses não permitissem que o racismo prevalecesse no estado e falou em “síndrome de grandeza”. Ao defender a igualdade entre negros e brancos e entre nordestinos e sulistas, também mencionou Adolf Hitler ao condenar a ideia de hegemonia branca.
As declarações provocaram reação política e da população nas mídias sociais. O governador Jorginho Mello (PL) anunciou representação à Procuradoria-Geral da República. O PL, por sua vez, levou o episódio ao Tribunal Superior Eleitoral.
São contestações políticas e jurídicas que devem ser tratadas como tais, e não como conclusões definitivas sobre as declarações presidenciais.
O episódio, porém, não terminou ali.
Quando o combate ao preconceito cria novas fronteiras
Nos últimos dias, durante nova passagem por Santa Catarina, Lula voltou a relacionar a resistência encontrada entre setores catarinenses à sua própria origem. Ao falar sobre o agronegócio, questionou por que produtores não apoiam seu grupo político e levantou a possibilidade de isso ocorrer por ele ser nordestino ou pobre.
Também afirmou que, considerando os recursos destinados ao setor, integrantes do agronegócio deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” para ele. É justamente nesse ponto que surge uma questão maior do que Lula, o PT, seus adversários ou a eleição de 2026.
Até que ponto é possível combater preconceitos recorrendo a generalizações sobre aqueles que não apoiam determinado projeto político?
Um eleitor pode rejeitar um presidente por inúmeras razões: economia, segurança, costumes, impostos, gestão pública, ideologia ou simplesmente preferência por outro candidato.
Preconceito contra nordestinos existe no Brasil e deve ser combatido sempre que identificado. Outra coisa é transformar esse preconceito em explicação ampla para a posição política de milhões de pessoas.
Quando isso acontece, a política corre o risco de novamente estabelecer duas categorias.
De um lado, “nós”.
Do outro, “eles”.
Os números contam outra história sobre Santa Catarina
Há um elemento objetivo que precisa fazer parte dessa discussão: a própria composição da população catarinense.
Os dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que 216.309 pessoas nascidas nos nove estados do Nordeste viviam em Santa Catarina.
São baianos, pernambucanos, maranhenses, cearenses, paraibanos, piauienses, potiguares, alagoanos e sergipanos que passaram a fazer parte das cidades, empresas, escolas e comunidades catarinenses.
O fenômeno ocorre dentro de um movimento migratório ainda maior. Entre 2017 e 2022, Santa Catarina recebeu 503.580 pessoas vindas de outras unidades da Federação. No mesmo período, 149.230 pessoas deixaram o estado.
O resultado foi um saldo migratório positivo de 354.350 habitantes, o maior entre todas as unidades da Federação naquele período. A migração acrescentou o equivalente a cerca de 4,65% da população catarinense.
Esses números não provam que episódios de preconceito inexistam em Santa Catarina. Nenhuma estatística migratória permitiria chegar a essa conclusão. Mas os dados também tornam difícil sustentar qualquer retrato simplificado de uma sociedade fechada aos brasileiros de outras regiões.
Pelo contrário: centenas de milhares de pessoas escolheram Santa Catarina para viver. E mais de 216 mil moradores do estado nasceram justamente no Nordeste.
Nordestinos também constroem Santa Catarina
Esse talvez seja o aspecto mais importante dessa discussão.
Quando se fala em catarinenses e nordestinos como grupos colocados em lados diferentes, ignora-se uma realidade cada vez mais presente nas ruas das cidades do estado: muitos nordestinos também são Santa Catarina.
São trabalhadores que ajudaram a movimentar a construção civil, a indústria, o comércio, os serviços, a agroindústria e inúmeras outras atividades. São famílias que estabeleceram raízes, criaram filhos e construíram suas vidas aqui.
O catarinense de hoje não pode ser definido apenas pelo local onde nasceu. Santa Catarina tornou-se destino de uma intensa migração interna brasileira. Pessoas de diferentes estados chegam em busca de trabalho, renda e oportunidades.
É evidente que crescimento populacional e integração social também produzem desafios. Preconceito e discriminação devem ser denunciados quando ocorrerem. Mas reconhecer esses problemas é diferente de transformar episódios individuais em identidade coletiva.
Os mais de 216 mil nordestinos residentes em Santa Catarina ajudam a mostrar uma realidade muito mais complexa do que qualquer divisão entre Sul e Nordeste.
Acolhimento não pode ser confundido com unanimidade política
Existe ainda outra distinção importante. Receber pessoas de uma região não significa necessariamente votar no candidato mais identificado eleitoralmente com aquela região.
Da mesma forma, um nordestino que vive em Santa Catarina não possui obrigação de votar em Lula. Nem um catarinense nascido no estado tem obrigação de rejeitá-lo.
Esse é justamente o fundamento da democracia.
Origem geográfica não determina voto.
Cor da pele não determina voto.
Condição econômica não determina voto.
E política pública não compra voto.
Quando Lula afirma que integrantes do agronegócio deveriam “se ajoelhar” diante dos investimentos realizados pelo governo, ainda que a declaração tenha caráter retórico, surge outro problema.
Recursos públicos não pertencem ao presidente. Plano Safra, financiamentos, abertura de mercados, rodovias, universidades, hospitais e demais políticas públicas são executados por governos, mas financiados pela sociedade.
Um produtor pode reconhecer uma política federal como positiva e votar contra o presidente que a executou. Assim como um trabalhador pode receber determinado benefício público e escolher a oposição.
Não existe dívida eleitoral com o Estado.
Santa Catarina não cabe em um rótulo
Santa Catarina tinha 7,61 milhões de habitantes no Censo de 2022.
É uma população formada por diferentes origens, culturas, religiões, condições econômicas e posições políticas.
Há eleitores de esquerda, centro e direita.
Há pessoas que votam em Lula.
Há pessoas que jamais votariam nele.
Há nordestinos bolsonaristas e catarinenses de nascimento petistas.
Essa diversidade deveria ser suficiente para demonstrar o risco das generalizações.
Da mesma maneira que seria inadequado reduzir o Nordeste às escolhas eleitorais predominantes de seus habitantes, também é inadequado interpretar Santa Catarina exclusivamente pela preferência política majoritária de seus eleitores.
O presidente tem razão ao afirmar que um nordestino não vale menos que um sulista e que uma pessoa branca não é superior a uma pessoa negra.
O princípio da igualdade não deveria estar em discussão.
O problema começa quando divergência eleitoral passa a ser interpretada pela lente da origem regional. Discordar de Lula não transforma alguém em preconceituoso. Assim como apoiar Lula não torna ninguém menos catarinense.
O presidente governa também para quem vota contra ele
Existe uma diferença fundamental entre o discurso de um candidato e a responsabilidade institucional de um presidente. Na campanha, existem adversários, projetos concorrentes e disputa por votos.
Na Presidência, quem governa representa também os brasileiros que escolheram outro candidato. Isso vale para Lula e deveria valer para qualquer pessoa que ocupe o Palácio do Planalto. Por essa razão, a linguagem presidencial tem peso especial.
Quando o chefe de Estado visita uma região onde encontra resistência eleitoral, há pelo menos dois caminhos possíveis: tentar compreender as razões dessa resistência ou atribuí-la a características do próprio eleitorado.
O primeiro caminho aproxima. O segundo pode aprofundar divisões.
Criticar manifestações racistas é necessário. Questionar políticas públicas estaduais faz parte da democracia. Defender as realizações do governo federal também é legítimo.
Mas transformar diferenças eleitorais em fronteiras regionais contribui pouco para aproximar um país que já vive dividido politicamente.
O Brasil precisa escapar do “nós contra eles”
A polarização brasileira não nasceu agora e tampouco pertence exclusivamente a Lula ou a um único campo político.
Lideranças de diferentes grupos recorreram, nos últimos anos, à construção de adversários e identidades coletivas para mobilizar seus apoiadores.
Justamente por isso, quem ocupa a Presidência tem responsabilidade ainda maior. O Brasil não precisa fingir que suas divergências desapareceram. Elas existem e fazem parte da democracia.
O desafio é impedir que o adversário político se transforme em alguém moralmente suspeito simplesmente porque pensa diferente. Os números da migração ajudam a derrubar uma fronteira artificial.
Nordestinos vivem em Santa Catarina. Catarinenses vivem no Nordeste. Brasileiros circulam, trabalham, constituem famílias e constroem suas vidas muito além das divisões eleitorais desenhadas nos mapas depois de cada eleição.
Santa Catarina não precisa concordar com Lula para fazer parte do Brasil governado por Lula. Da mesma maneira, estados onde o presidente possui maior apoio eleitoral não pertencem a outro Brasil. A Presidência da República não representa apenas quem aplaude o governante.
Representa também quem protesta, quem critica e quem vota contra ele. Talvez seja essa a principal mensagem que os números do próprio IBGE oferecem ao debate.
Enquanto a política insiste em separar brasileiros entre “nós” e “eles”, a vida real faz exatamente o contrário. Ela os mistura.
