sexta-feira, 2 outubro , 2026

Manigâncias do poder

O mundo foi por séculos uma ideia só, emanada de uma única fonte de poder. Ou se era católico, ou se era coisa nenhuma. Isso chegou a um ponto em que o catolicismo era muito mais do que uma “opção de crença”; era a explicação de tudo, a interpretação única dos acontecimentos.
O Renascimento, a redescoberta da ciência grega, o Iluminismo… As complexificações que as ciências trouxeram. O poder deixou de ser vontade da divindade católica e se tornou coisa da humanidade. Maquiavel (que não era maquiavélico) explica isso muito melhor do que eu.
Os estados nacionais, as disputas de grupos organizados pelo seu comando, as compreensões ideológicas, a burguesia restringido os limites da nobreza (ainda não completamente), as lutas de classe, o surgimento das mídias, o nascimento da opinião pública (ou publicada). A dialética do poder.
O poder tornou-se movimento, uma medida de força permanente. No tempo da Guerra Fria (pós Segunda Guerra) houve marcante retrocessão. Havia o mal, havia o bem. Conforme a posição geopolítica e ideológica do interessado, do alinhamento com a URSS ou com os EUA, os conceitos eram maldosos ou bondosos.
Reducionismo. Simplificação. Sectarismo. Pobreza intelectual. O arranjo da própria existência advinha da posição grupal. Foi um tempo de controle: da arte à escola infantil; da música ao conteúdo das disciplinas escolares. Capitalistas e comunistas conspirando, financiando ditaduras, manipulando o que podiam.
Essas forças eram verso e anverso de uma briga que se espraiou pelo planeta. As partes envolvidas não eram adversárias de ideias, mas inimigas. Os inimigos deveriam ser excluídos. Sobre parte do mundo estabeleceu-se uma Cortina de Ferro, a ditadura burocrática e militar de orientação soviética.
Sobre outra parte, incluindo a América Latina, foi implantada a Doutrina da Segurança Nacional, de inspiração estadunidense. A implementação da teoria foi confiada aos milicos do Continente. No Brasil, 1964: militares, UDN, igreja católica. Polícia, censura, tortura, assassinatos, corrupção. Educação Moral e Cívica, um horror.
Contra isso, duas frentes resistiam: os comunistas e os democratas. Os comunistas, minudentes, formaram seitas disciplinadas, “cabeças feitas”, centralismo autoritário que denominavam democrático, guerrilha. Fariam a revolução em breve e salvariam o povo. Pretexto para a Ditadura mais se prolongar e mais matar.
Os democratas foram lidando com as brechas, alargando-as, fortalecendo posições. Não foi nada fácil. Ao fim, conciliação. A História do Brasil está forrada de acertos “por cima”. A democracia veio depois do ajuste: anistia ampla, geral, irrestrita e “recíproca”. Os ditadores, no “recíproca”, anistiaram a si próprios.
Reorganização das coisas, retomada dos caminhos democráticos. As disputas políticas vão se conduzindo por meio de partidos. Os derrotados não se conformam. Na linguagem do futebol, perdem na grama, buscam vitória no tapetão. O PT inaugurou a coisa: impeachment de Collor.
Foi péssima inauguração. Mas a grei lulopetista entendeu de seguir no “golpe” inaugurado: pediu impeachment, “golpe”, de todos os presidentes que não os seus. Pediu meia centena de vezes. Pediu tantas e tantas vezes que houvesse um “golpe” até que seus comparsas de governo manobraram o seu.
Manigâncias do poder. Os poderosos sempre manobram o poder. Fazem até o que não devem fazer. O instituto do impeachment, um ato extremo contra um governo eleito, o “golpe”, foi trazido à baila pelo PT. O PT foi alcançado pelo seu modo de lidar com governos eleitos. Segundo nomearam: “golpe”.
Collor foi inocentado pelo STF que, diga-se, não indicou. Restou por aí uma acusação mal provada de que alguém lhe pagara um Elba (carro popular). Petistas indicaram oito de onze ministros do Supremo. Petistas estão por demais implicados em crimes de corrupção. Vão opor suspeição às suas indicações?
Há uma coisa outra: petistas principiaram um discurso de “nós” e “eles”: o bem e o mal. Diversionismo dos desmandos e corrupção. Também deu certo, mas também foi uma péssima ideia a ser instaurada como manobra de poder. Essas partes divididas tomaram gosto e foram nomeadas: mortadelas e coxinhas.
Guerrilheiros da desinformação. Preconceito e ressentimento. Insultos desprovidos de opinião. Consolidamos, sem muita convivência democrática, a democracia. Vamos superar os impropérios e a malcriadez. Isso vai até a próxima eleição. Que nenhum aventureiro avente “golpe”. Que o Brasil se trate com sensatez.

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