Víctor Daltoé dos Anjos
Geógrafo pela UFSC
victordaltoe@gmail.com
Truculência. Um partido infiltrado nas instituições do Estado em benefício próprio. Goles generosos de recursos públicos para grandes empresários amigos. Despejo de assistencialismo sobre os pobres na busca de vitórias eleitorais. Tudo isso azeitado pelo intervencionismo estatal. Sim, estamos falando da Nicarágua do presidente Daniel Ortega, onde a brasileira estudante de medicina Raynéia Gabrielle Lima foi metralhada na noite de segunda-feira (23). A tragédia na Nicarágua respingou no Brasil.
Aos gritos de “Daniel y Somoza son la misma cosa!”, jovens se lançam nas ruas contra o atual presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, populista de esquerda e líder histórico do sandinismo.
Comparam-no aos ditadores populistas de direita da família Somoza, a qual governou o país centro-americano entre 1933 e 1979. Sob as ordens do governo, a polícia e grupos paramilitares simpatizantes de Ortega já está há meses abrindo fogo e fúria sobre os atuais manifestantes.
O partido liderou a derrubada do último ditador da família Somoza em 1979, iniciando a abertura democrática depois de 40 anos de ditadura. Daniel Ortega governou o país entre 1985 e 1990. De volta ao governo, em 2007, Ortega aprovou o projeto da reeleição ilimitada em 2014 e se beneficiou com o veto da Justiça Eleitoral à principal chapa oposicionista a ele nas eleições de 2016. Enquanto isso, passou a receber o petróleo subvencionado do regime bolivariano do venezuelano Nicolás Maduro.
Assim, o presidente nicaraguense se junta à série de líderes nacionalistas que se elegeram democraticamente nas últimas décadas, mas que passaram a flertar com o autoritarismo, a corrupção e a busca pela perpetuação no poder. Putin, na Rússia; Erdogan, na Turquia; Duterte, nas Filipinas; Chaves e Maduro, na Venezuela. A lista só cresce e o desastre se alastra. Ortega chegou a se aproximar da China em busca de apoio nos últimos anos, também na esperança de que os chineses financiassem um novo canal que atravessasse a Nicarágua, em contraposição ao Canal do Panamá, que fica sob vigilância dos Estados Unidos. Mas a parceira com a China parece estar congelada. Entretanto, com a morte de Raynéia, pernambucana de 31 anos, a crise pode adquirir consequências diplomáticas mais sérias. O Itamaraty, Ministério das Relações Exteriores brasileiro, já pediu explicações ao governo nicaraguense em relação ao assassinato.
A repressão policial do governo está dura. Pelas estimativas de organizações internacionais de defesa dos direitos humanos entre 270 e 350 já foram assassinados pelos defensores do governo de Daniel Ortega. Em sua maioria jovens, cobertos com o seu lençol diáfano da morte trágica. Se Ortega conseguir dormir tranquilo com tantos esqueletos enfiados dentro de seu armário, saberemos que “Daniel y Somoza son la misma cosa”.