segunda-feira, 2 março , 2026

Médica luta contra mutilações genitais em meninos na África do Sul

Há 30 anos ela é criticada, insultada e ameaçada. Mas a médica Mamisa Chabula-Nxiweni segue em frente e continua relatando os danos causados pelas circuncisões tradicionais “selvagens” impostas aos adolescentes na África do Sul.

Em seu consultório no bairro marginal de Motherwell, na cidade portuária de Port-Elizabeth, esta médica de 72 anos mostra a tranquilidade de quem está determinada a defender uma causa justa.

“Não me arrependo de nada”, afirma a dra. Chabula-Nxiweni. “Pedimos ao governo para agir, já que continuam morrendo jovens, devido a circuncisões malfeitas”, acrescenta. “Era necessário fazer alguma coisa”.

 Sua luta e compromisso não foram compartilhados por todos neste país, onde as tradições étnicas seculares são muito enraizadas, especialmente nas comunidades rurais.

Todos os anos, milhares de meninos entram oficialmente na idade adulta em cerimônias rituais exclusivamente masculinas organizadas no campo, nas quais a circuncisão é o destaque.

Realizada por um médico tradicional, cujo conhecimento é tão rústico quanto as condições de higiene em que se desenvolve, a operação é perigosa e, muitas vezes, causa complicações que podem ser graves.

Mlungisi Booi – nome fictício – teve a amarga experiência dessa prática. O habitante do município (bairro marginal) de Kwazakhele foi à cerimônia, feliz por se tornar um “verdadeiro homem”, mas saiu dela marcado para sempre. “Tive que amputar parte do pênis”, conta ele. “Não posso mais ter uma ereção”, relata.

 Sua operação deixou essas sequelas, devido ao uso de “instrumentos não esterilizados”, explica este jovem de 20 anos. “Acabei com uma gangrena. Os médicos não tiveram outra escolha a não ser cortar uma parte do meu pênis”.

 

– “Salvar vidas” –

Às vezes, as consequências podem ser ainda mais dramáticas. A “temporada” de cerimônias de iniciação, que começou há três semanas, já matou 23 jovens na África do Sul, como informou com preocupação nesta semana o ministro da Saúde, Zweli Mkhize.

A maioria é por desidratação – os circuncidados são privados de água para evitar a micção -, o que causa insuficiência renal fatal. “Essas mortes são evitáveis e realmente tristes”, lamenta o ministro Mkhize. Desde 1987, a doutora Chabula-Nxiweni se concentra nos danos causados pelas circuncisões rituais.

“Fiquei traumatizada ao ver meninos com o pênis amputado”, conta a médica. “Decidi intervir para cuidar de sexos danificados e salvar vidas”, explica. Sua iniciativa gerou críticas generalizadas dos chefes tribais, que defendem suas tradições antigas. 

Há dois anos, a mobilização desses chefes tribais obrigou a comissão nacional de censura a proibir crianças menores de 18 anos de assistir o filme “The Wound” (“A ferida”, em português), pré-selecionado para o Oscar e ganhador de vários prêmios no exterior.

O diretor de cinema sul-africano, John Trengove, ousou contar uma história de amor homossexual durante uma cerimônia de circuncisão de iniciação. Isso foi considerado um sacrilégio.

A médica Chabula-Nxiweni também não escapou das críticas, ainda mais duras por ser uma mulher. 

“Nossa posição é clara: as mulheres não têm absolutamente nenhum lugar na circuncisão”, sentenciou o presidente da Câmara de chefes tradicionais do Eastern Cape, Mwelo Nonkonyane. “É algo que cabe exclusivamente aos homens”, insistiu.

Há, porém, uma generalização das circuncisões médicas há uma década, para prevenir a contaminação pelo vírus da Aids.

Por fim, um estudo científico realizado em 2014 determinou que 48% da população masculina negra do país foi circuncidada, sendo mais de dois terços de maneira tradicional.

A dra. Chabula-Nxiweni tem recebido o apoio de muitos colegas há anos e, apesar de sua idade, não está disposta a deixar seu trabalho.

 

“A tradição é muito boa, mas o que ganhamos ao preparar os meninos para se tornarem homens se morrem no meio do caminho?”, questiona esta mãe de dez filhos. 

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