A nos atrás, quando estava na direção do Instituto de Cardiologia do Estado, uma senhora veio falar comigo e fazer uma solicitação, o que é habitual. Pediu para interceder no sentido de que a cirurgia cardíaca de uma paciente internada fosse marcada o mais rápido possível. Justificou dizendo que estava realizando um trabalho de apoio a pessoas hospedadas em uma das instituições beneficentes de São José e que nesta função havia verificado a ansiedade da filha da paciente, com a solução do problema de saúde da sua mãe. Esta senhora mora no interior e estava no local aguardando e visitando diariamente sua mãe.
Este é um fato comum, corriqueiro. A instituição tinha uma elevada demanda e limitações estruturais para um maior atendimento. Afluem pessoas de todo o estado, e, certamente, cirurgia cardíaca é um ato médico complexo e dependente de muito fatores, não apenas da capacidade do médico em operar.
Mas este não é o motivo de fazer este relato. Embora, como assunto do dia a dia, tenha motivado estas referências, o fato que realmente desejo contar é sobre a pessoa que me procurou. Referiu ser médica, que morava em São Paulo e veio para a Grande Florianópolis. Possivelmente atraída pelos relatos dos encantos de nossa região. Por vezes com alguns desencantos, mas este também não será meu tema.
Esta médica disse que se formou em 1950. Não perguntei sua idade, até para manter a conversa no tom educado, civilizado e muito gentil que apresentou. Depois de nos despedirmos, tive intensa vontade de relatar sobre a doutora, como agora estou fazendo, principalmente pelo exemplo que, naquele momento, tive de que nossa profissão, por vezes desmerecida, por vezes entristecida, é também formada por pessoas que têm pela medicina apego, dedicação, uma verdadeira paixão.
Esta paixão pelo atendimento é certamente um dos pilares de nossa profissão e de nossa arte.
Recordo a maneira enfática com que meu professor Luiz Vénère Décourt, certamente uma das maiores culturas médicas e humanísticas que tive conhecimento, nos dizia há tantos anos, afirmando que nossa profissão tem pilares que a sustentam: a ciência, que deu grandes passos através da história; a docência, gratificante ato de ensinar nossa ciência; e nossa arte, que iniciou com a própria medicina. A assistência, que podemos dizer teve início com Hipócrates, fundamentou a sua prática e a sua forma de compreender o organismo humano.
A doutora aposentou-se formalmente de sua profissão e veio para cá. Afinal, foi mais de meio século de atividade. Mas não se aposentou, não pode se afastar de sua paixão: a medicina. O cuidado ao próximo, o apego aos pacientes, o servir às pessoas. Veio fazer trabalho voluntário. Pelo que relatou, não faria atendimento às patologias, mas aos pacientes: atuaria junto às mães e às crianças, ensinando posturas higiênicas, alimentares, cuidados em geral. Iria transmitir sua experiência de pediatra, nesse prolongado, imenso convívio com mães e filhos.
Depois de tantos anos, com seus próprios filhos não mais necessitando de si, irá doar-se aos outros, voluntariamente. Esses fatos são imensamente gratificantes de serem conhecidos, de que realmente para tantos a medicina é profissão até um dia, mas paixão para sempre.

