sexta-feira, 2 outubro , 2026

Mercado de gás natural vive “evolução histórica”

O mercado brasileiro de gás, incluindo o catarinense, é claro, passa por um processo muito semelhante ao que já se viu no setor de infraestrutura dos chamados países desenvolvidos: a migração de um setor que nasce estatal, tem um ciclo de desenvolvimento, chega à saturação e se transforma para competir em um mercado de livre concorrência.

A análise é do presidente da Companhia de Gás de Santa Catarina (a SCGás), Willian Anderson Lehmkuhl, que acrescentou que o benefício para a sociedade foi muito grande nos países que já venceram a etapa de migração. “Estamos vivendo uma evolução histórica. Quando se vai de um mercado monopolista para um em que a livre concorrência começa a funcionar, o consumidor final passa a ter opções e algum tipo de benefício. No Brasil isso ainda está em estudo e depende de transformação em toda a legislação que regula o setor.”

Prestadores de serviços

Atualmente, no Brasil, o governo federal regula a exploração e a produção dos campos de petróleo e gás, o refino, o tratamento e o transporte. A distribuição ao consumidor final é atribuição  onstitucional dos estados, cujas empresas estão submetidas a uma agência reguladora. No caso de Santa Catarina é a Agência Reguladora de Serviços Públicos (Aresc). É ela que define as regras e fiscaliza as atividades da concessionária.

Nos governos centrais anteriores, um movimento liderado pelo Ministério de Minas e Energia criou o Gás para Crescer. O programa passou por algumas mudanças e, no atual governo, é chamado Novo Mercado de Gás, mantendo as ideias iniciais – liberalização do mercado, entrada de novos agentes, redução da participação da Petrobras. “Nós, do último elo dessa cadeia, que é a distribuição, estamos acompanhando muito atentamente esses movimentos, porque podem impactar nosso cliente final justamente através da regulamentação de um mercado livre, onde nos tornaremos em prestadores do serviço de distribuição, não mais vendedores. Esse é o caminho, mas temos bastante regulamentação a ser vencida”, explica o presidente da SCGás.

SCGás mais forte

Este aí de cima é o mercado da SCGás hoje. Do total que a concessionária distribui, a maior parte é consumida pela indústria; em um segundo lugar muito distante está o Gás Natural Veicular (GNV); e, ainda mais distantes, o Gás Natural Comprimido (GNC), com 1,11%, os clientes residenciais (0,24%), a cogeração (0,07%), os clientes comerciais (0,76%) e a matéria prima (0,02%), somando os 2,2% da fatia “outros” do quadro.

Para manter e ampliar esse mercado, a companhia recebeu R$ 1,10 bilhão em investimentos desde 1994 – quando começou a valer o contrato de concessão – até o final do ano passado.

Entre os primeiros

Com isso, Santa Catarina conquistou o status de quarto estado em extensão de rede implantada (1.157quilômetros), segundo com o maior número de municípios atendidos (61) e terceiro com o maior volume de vendas para o segmento veicular. “Tudo o que venha a dinamizar o mercado, eu vejo como positivo”, afirma Lehmkuhl.

Dinamizar também significa investir em expansão. Já está contratada a obra para implantação da rede do município de Rio do Sul até Trombudo Central, que deve ficar pronta ainda em 2019.

Projeto Serra

A rede da SCGás chega hoje até a Rio do Sul (veja no mapa), no Projeto Serra Catarinense. Quando chegar a Trombudo Central, será feita a contratação do novo trecho, até Pouso Redondo, que deve ficar pronto em 2020. O fato de a rede não ter chegado a Lages, o que só deve acontecer em 2023, não significa falta de atendimento para o município. Lá está sendo finalizada a rede isolada, inédita no estado.

O fornecimento vai ser antecipado com a construção de uma rede local, conectando os primeiros clientes. Com a entrada em operação no segundo semestre, a SCGás levará gás comprimido, de caminhão, até Lages, onde vai descarregar para a distribuição aos primeiros consumidores. “A estratégia é que já teremos mercado formado nas áreas industrial, comercial e postos de GNV quando a rede principal chegar. E com condições de ampliação”, prevê.

Passo a passo

Para ficar pronta, a rede principal exige cerca de R$ 1 milhão por quilômetro. São recursos próprios da SCGás, obtidos com a venda do gás. “Se tivermos volume de venda suficiente, a expansão acontece. Por isso a rede isolada é tão importante. Ela antecipa a formação do mercado e esse mesmo mercado garante a expansão da rede principal.”

Assim, quase passo a passo, a SCGás vai integrando o estado na direção do desenvolvimento sustentável, econômica e ambientalmente. E trabalhando com as diferenças regionais.

Em Joinville, maior concentração industrial do estado, a rede não precisa ser tão extensa, mas o volume exigido é alto. Por outro lado, mais para o interior catarinense o volume necessário é baixo, mas é necessária uma grande extensão de rede. “A indústria puxa. O GNV ajuda. Os outros segmentos vêm pela oportunidade.”

Desde o começo

Antes de ser aprovado no primeiro concurso para compor o quadro de funcionários da SCGás, Willian Anderson Lehmkuhl já conhecia bem a companhia, que conheceu ainda como estudante e depois como pesquisador e empregado terceirizado. O relacionamento de Lehmkuhl com a empresa praticamente coincide com o tempo de atividade da SCGás – quase 20 anos. Com tanto conhecimento, tornou-se também o primeiro funcionário de carreira a ocupar a presidência da empresa. Ele recebeu nossa reportagem em seu gabinete para contar um pouco dos planos que tem para a companhia. Em mais de uma hora de conversa, o engenheiro na área de Mecânica, com mestrado em Energia (Utilização do Gás Natural na Indústria), pela UFSC, falou sobre expansão da rede, soluções intermediárias, novas possibilidades de negócios e sobre as mudanças no mercado nacional com o fim do monopólio da Petrobras no setor. Para Lehmkuhl, a grande vantagem desse novo momento será a competição pelas regras do mercado.

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