sábado, 3 outubro , 2026

Meu canalha é menos pior do que o teu

Há quem raciocine fundado nas brevidades que os slogans oferecem. No lugar de um argumento e seus fundamentos, sai um bordão. O bordão é uma expressão concisa que não induz nem deduz, mas constitui uma opinião.

Um slogan “mioja” o enredamento da boa cozinha, reduz a complexidade das coisas. Um ícone da corrupção brasileira, Adhemar de Barros, estabeleceu-se no nosso folclore político com uma marca: “Rouba, mas faz”.

Esse era o bordão de seus defendentes, o argumento de seus cabos eleitorais, o mote moral de seus eleitores. Esse deboche da moral pública é o pretexto cínico do correligionário que protege o indefensável.

Um pequeno salafrário, quando justifica para si mesmo um estado de salafrarice acima do seu alcance, lança mão de uma apaziguadora razão cínica: O meu canalha é canalha, sim, mas é menos canalha do que o teu.

Em tempos de internet slogans proliferam-se como memes. Formas meméticas: viralização das reduções de acontecimentos ao alcance popular; popularizão da edição dos conteúdos; descomplexificação dos fatos.

Desconfio da popularidade induzida. “A ideia de meme pode ser resumida por tudo aquilo que é copiado ou imitado e se espalha (eu diria: é espalhado) com rapidez entre as pessoas” (http://migre.me/wEEfS).

El País (19mai17): “Memes, a única instituição funcionando plenamente no Brasil”. Estaria bem, se ironizássemos a nós mesmos diante da nossa situação ordinária. São memes irônicos investidos em cínica guerra.

Uma quadrilha nos governava e nos governa. Assaltaram-nos o erário e colocaram o alto escalão da República na folha de pagamento de empresas. Nos roubavam e nos roubam; pagavam-se e se pagam para nos roubar.

Os cúmplices do combo de assaltantes da Pátria desorganizaram-se. Desacertaram-se. Sectários de cada parte do bando atribuem-se reciprocamente culpas. Sequazes e seus ladrões prediletos. Slogans, memes, incoerência.

A JBS denuncia Temer. Certo, é de acreditar, então, “fora Temer”. A mesma crível JBS denuncia Lula e Dilma, dizendo em delação premiada que abriu conta no exterior para favorecê-los. Não seria o caso de “fora Lula”?

Vazou gravação do envolvimento supostamente criminoso de Dilma obstaculizando a Justiça ao nomear delivery Lula ministro. Judiciário criminoso, foi gritado. Certo. Não é permitido que provas escorreguem dos autos.

Vazou o envolvimento supostamente criminoso de Temer. A Nação para estarrecida. De fato, é acontecimento estarrecedor. Mas, quanto ao reclame de vazar? Não vejo quem impute vazadura criminosa ao Judiciário.

A grande mídia e o Judiciário mancomunaram-se para noticiar seletivamente a ladroeira lulopetista, dizem os sectários dessa parte da quadrilha. E agora? A grande mídia e o Judiciário vazaram Temer. Que dizeres haverá?

Agora a Ordem dos Advogados do Brasil pedirá o impeachment de Temer. A OAB é, pois, golpista? Depende, dirá a torcida de uma parte: quando pede o de Temer, está correta; já no caso de Dilma, claro, foi golpe.

Cinicamente, indignação selecionada: odeio quem denuncia o meu ladrão, quem vaza os atos do meu criminoso, quem noticia as calhordices dos trânsfugas que aprecio. O meu corrupto é menos desonesto que o teu.

Trânsfuga: “aquele que renega seus princípios, que se descuida de seus deveres” (Houaiss). Eu diria: trânsfuga político é quem trai o comprometimento do seu mandato. O trânsfuga desmoraliza a ideia de política.

O Brasil é espoliado por uma elite que não se impõe limite. Politicamente, essa direita arrivista nada deve. Ela jamais se comprometeu a mais do que é, jamais discursou noutra direção. Ela desconhece convivência pública.

A questão que importa é a esquerda. Claro, há que se dar desconto: não se pode cobrar o discurso eleitoral, que nunca fala da realidade. Refiro a renegação de princípios, da traição da honestidade esperada.

Se a esquerda era (e é) a saída, ela não pode trair a si mesma, pois trai a credibilidade da política como meio de transformação social. Seja: se a esquerda vem pra fazer o que a direita fazia, qual o sentido da mudança?

Tenho ouvido a resposta cínica: o meu corrupto teve mais preocupação social. É uma alegação adhemarista de conveniência, só. Não subsiste como teoria política nem é eficiente como realização de igualdade econômica.

O desinformado, ainda que se tenha por sagaz, desentende que compromissos de corrupção, ainda que de esquerda, enriquecem a direita e criam mais distanciamento social. Foi exatamente o que aconteceu no Brasil.

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