Lysiê Santos
Laguna
O hábito da pesca colaborativa virou tradição e é repassada entre gerações. Os botos pescadores são patrimônio natural de Laguna desde 1997, o que deu à cidade o título de Capital Nacional do Boto Pescador. A espécie é famosa na região por cercar os cardumes e empurrar os peixes para o lado dos pescadores no Canal da Barra, os quais utilizam tarrafas após receber um sinal dos animais. Contudo, essa parceria entre animal e pescador está sendo ameaçada. Nos últimos dois anos várias ocorrências de mortes de botos no Complexo Lagunar chamam a atenção de especialistas. Na sexta-feira, o Projeto de Monitoramento de Praias de Laguna recolheu mais um boto morto, desta vez, na Praia do Gi. Há indícios de marcas de rede no animal.
Para garantir a permanência dessa espécie na região, o Instituto Ambiental Boto Flipper reivindica um instrumento jurídico municipal que estabeleça uma área de restrição da pesca de emalhe, na Lagoa de Santo Antônio e no canal do Rio Tubarão. “O objetivo é que consigamos fortalecer e buscar junto aos gestores públicos estratégias de aumentar e intensificar a fiscalização dessa área, inclusive por conta de iniciativas municipais. Atualmente o único órgão que faz as fiscalizações efetivas nessas áreas é a Polícia Militar Ambiental – que tem seu efetivo muito reduzido”, afirma o presidente do instituto, o biólogo Arnaldo D’Amaral Pereira Granja Russo.
A entidade organiza uma moção pública de repúdio a mortalidade dos botos. O documento tem conquistado a adesão da população e já conta com mais de 1,5 mil assinaturas online e mais de 600 impressas. O documento seria entregue nesta segunda-feira (11), durante a sessão da Câmara de Vereadores. Porém, o poder legislativo transferiu o ato para a próxima segunda-feira. “Nossa intenção é criar um grupo de trabalho para a restrição da pesca de emalhe. Na próxima segunda vamos apresentar a proposta de um projeto de lei que deve ser construído com o grupo de trabalho e os vereadores. Queremos que se crie uma área de proteção aos botos com a exclusão da pesca de emalhe nos lugares onde há maior incidência da espécie e assim garantir sua preservação”, explica o especialista.
Ameaças : Conjunto de ações prejudicam espécie
De acordo com a Fundação Lagunense de Meio Ambiente (Flama), não são só as redes que ameaçam os botos. Há uma série de fatores, como a poluição das águas por todos os municípios que desembocam seus esgotos no canal do Rio Tubarão, circulação indevida de embarcações, assoreamento da lagoa (resultado da ocupação irregular das margens das lagoas, que acabam levando o sedimento para o corpo d’água) e poluição sonora ao corpo aquático, interferindo na comunicação de ecolocação dos botos, entre outros. “O Plano Gestor da APA da Baleia-franca vem discutindo a possibilidade de implementar essa restrição da rede de emalhe no canal do Rio Tubarão. Entretanto o município não pode ficar esperando esses instrumentos. Ele deve agir de forma local, no sentido de conservação da espécie”, defende o presidente do Instituto Boto Flipper.

