Se teve alguém que bagunçou a minha vida nos últimos três meses, foi a Cleópatra. Eita mulher que me tirou do prumo. Fez atrasar minhas escritas, me fez perder horas e horas de sono, desregular minha academia e meus horários de refeições. Aliás, a crônica de hoje vem falar de comida, então vamos deixar para falar desta mulher atrevida um pouco mais para frente.
Faltavam duas semanas para o lançamento do meu novo livro e eu estava a mil. Com uma agenda apertadíssima naquele sábado, eu sabia que não teríamos outra coisa a fazer senão encontrar um lugar para comer. Liguei para minha filha, pois queria um lanche rápido e, naquela altura do campeonato, não vinha nada em mente.
Marina atendeu e falou duas ou três opções, mas uma delas me surpreendeu tanto que eu perguntei:
— Filha, tem certeza? Ainda atendem? Não acredito!
Lembrei da expressão que ouço as vezes: “Me fui pra lá correndo”.
Chegando lá, percebi que pouca coisa tinha mudado. O mesmo balcão, o mesmo espaço, as mesmas mesas e para minha felicidade, o mesmo proprietário.
Na hora em que entrei naquele bar, um filme passou pela minha cabeça.
Televisão quase sempre ligada no futebol, homens bebendo seus martelinhos, suas cervejas, conversas altas, risadas soltas — e, ainda assim, tudo acontecia dentro de uma harmonia rara de se ver. E isso nunca foi por acaso.
Enio e seu cunhado construíram ali algo que vai muito além de um bar ou de uma lanchonete. Construíram um espaço de convivência baseado em respeito. Havia amizade, brincadeiras, discussões sobre futebol, opiniões divergentes, mas existia uma linha muito clara que ninguém ultrapassava. Todos sabiam que, dentro daquele espaço, respeito vinha antes de qualquer coisa.
Talvez esse tenha sido o grande segredo para manter aquele lugar vivo por 42 anos: não vender apenas uma bebida ou um lanche, mas oferecer um ambiente onde as pessoas se sentiam seguras, acolhidas e pertencentes.
Quando Enio me viu, veio com os braços abertos. Abracei-o e me emocionei ao vê-lo com o mesmo sorriso, a mesma alegria, aquela camaradagem que poucos conseguem levar por toda a vida. Dono de carisma, educação e visão de negócios, tanto que não deixou seu negócio perder a referência.
O chope geladíssimo, uma novidade, nos agradou demais, mas foi na hora de pedir o lanche que eu me senti dona de um pedacinho daquele lugar:
— O de sempre?
Sim, depois de tantos anos, o de sempre!
E lá veio aquele lanche que, só naquele lugar, permanece quente da primeira até a última mordida. Acho que não mudaram a chapa, só o chapeiro, pois o gostinho permanece o mesmo. O sabor dos ingredientes se sente um a um, acompanhado do melhor gosto que um lanche pode oferecer: sabor de saudade, de afeto e de amor pelo que se faz.
Saí da lanchonete Bardini com a sensação de que não tinha apenas voltado a um lugar. Eu havia revisitado uma parte de mim.
Ali estão guardadas muitas das minhas memórias afetivas da juventude — encontros, risadas, conversas e fases da vida que ajudaram a construir quem eu sou. E o mais bonito é perceber que essa história não ficou presa no passado.
Hoje, meu marido e meus filhos também fazem parte dela.
De alguma forma, aquele espaço atravessou gerações. O bar que acolheu minha juventude agora também abraça minha vida adulta, minha família e as novas lembranças que seguimos construindo.
Talvez seja isso que transforme certos lugares em algo tão especial:
eles deixam de ser apenas um endereço e passam a morar dentro da gente.
Um viva às boas lembranças — aquelas que resistem ao tempo, nos embalam com leveza e sempre devolvem um sorriso ao rosto.
Nos encontramos nas próximas linhas!

