domingo, 27 setembro , 2026

O Colo que a Parturiente Também Precisa 

Hoje, Dia das Mães, passei horas refletindo sobre a crônica que escreveria. Entre tantos caminhos possíveis — porque maternidade é um universo vasto, profundo e delicado — escolhi falar sobre mulheres que, muitas vezes, permanecem na obscuridade justamente no momento em que mais precisam ser vistas: as parturientes. 

Falo disso por experiência própria. 

E talvez seja exatamente por isso que escrevo com tanta segurança, mesmo contrariando a opinião de alguns leitores. Nelson Rodrigues já dizia: “Toda unanimidade é burra”, então vamos lá! 

O mês era outubro e o ano, 1990. 

Ao meio-dia, nasceu meu primogênito. Havia a suspeita de hidrocefalia, e a expectativa da família e dos amigos em torno do diagnóstico era enorme. O parto foi de cesariana e, depois de quatro horas na sala de recuperação, cheguei ao quarto e encontrei dezessete pessoas me esperando. Naquele tempo, visitas eram liberadas sem qualquer restrição. 

A hidrocefalia de Caio foi descartada com uma pontuação 10 no Apgar. Mas o diagnóstico de nanismo havia sido ocultado por decisão do pai, numa tentativa de me poupar. 

Enquanto eu tentava me reconhecer naquele novo corpo, naquela nova vida e naquele turbilhão hormonal e emocional, precisava também dar atenção àquele quarto cheio. No dia seguinte, mais visitas chegaram. O movimento aumentava e, junto dele, crescia em mim a sensação de que havia algo errado. 

Mamãe achou meu filho diferente. Mas todos que o levavam para “exames de rotina” desconversavam. As visitas também silenciavam.

Saí do hospital direto para a casa de mamãe. E, naquela época, era comum a romaria de pessoas após o nascimento de um bebê. Algumas visitas ficavam minutos; outras, horas. Hoje percebo o quanto a presença da minha mãe foi essencial para me sustentar naquele momento. Sozinha, talvez eu não tivesse conseguido suportar. 

Porque nem todas as pessoas estavam ali para nos acolher. Muitas vinham movidas pela curiosidade. 

Até que, no décimo quinto dia, uma visita me disse:
— Sinto muito por você ter tido um filho anão.   

Naquele instante, o chão se abriu sob meus pés. E o que veio depois talvez nem caiba inteiro em uma crônica. Talvez em um livro. 

 

 

O mês era janeiro e o ano, 1992. 

No nascimento da minha segunda filha, Marina, eu já conhecia o peso de certas invasões. Já sabia que maternidade exigia proteção emocional.

Escolhi ter apenas minha afilhada como acompanhante. Nos dias seguintes, mantive as visitas restritas até minha saída do hospital. Fui direto para minha casa, amparada apenas por mamãe e por minha secretária. 

E foi diferente. 

 

O ano era 2005. 

Em minha primeira palestra para mulheres, falei justamente sobre a invisibilidade da parturiente. Porque, muitas vezes, toda atenção se volta para o bebê, enquanto a mulher desaparece diante dos olhos de todos. 

Esquecem que ela acabou de atravessar uma das maiores transformações físicas, emocionais e hormonais da vida. 

Esquecem do medo, da exaustão, das dores, da privação de sono, da amamentação — que, embora sagrada, também é cansativa. 

Esquecem que a mãe mal consegue tomar banho no horário que deseja, descansar ou simplesmente existir sem interrupções. Durante os primeiros meses, quem determina o ritmo da vida é o bebê. E tudo isso exige acolhimento, respeito e equilíbrio emocional. 

Respeitar a parturiente não é exagero. É necessidade.

Uma mãe emocionalmente acolhida transmite segurança ao bebê. O ambiente ao redor interfere diretamente nesse início de vínculo, adaptação e construção afetiva. O cuidado com a mulher é também cuidado com a criança. 

A rede de apoio é fundamental, mas ela precisa acontecer em consenso, respeitando o desejo da mãe, o tempo da família e os limites daquele momento tão íntimo. Apoiar não é invadir. Estar presente não significa ocupar espaços que deveriam ser de silêncio, descanso e conexão. 

 

O mês era março e o ano, 2026. 

Enquanto ajudava minha enteada a cuidar da pequena Melissa, comentei sobre as pouquíssimas visitas recebidas. Eu já estava ali havia mais de trinta dias e aquilo me chamou atenção. 

Para minha surpresa — e alegria — ela me contou que, na Alemanha, não se visita uma mulher que acabou de dar à luz antes de pelo menos dois ou três meses. A privacidade da família é preservada. As únicas visitas frequentes são de parteiras e enfermeiras, suporte oferecido pelo governo e amigos muito próximos. 

Segundo ela, existe um consenso cultural de que mãe e bebê precisam de tempo para se adaptar. 

E foi impossível não comparar. 

Aquilo que, na nossa cultura, muitas vezes é interpretado como distância ou ausência, lá me pareceu respeito.

Um respeito precioso. Um cuidado silencioso. Uma pausa necessária para que mãe e filho possam se reconhecer, se acolher e se amar sem pressa. 

Hoje, olhando para trás, percebo que toda mulher que dá à luz deveria ter o direito de escolher como deseja viver seus primeiros dias de maternidade. Porque nascer mãe também é um parto. E toda mulher merece atravessá-lo com dignidade, acolhimento e amor. 

Talvez o maior presente que possamos oferecer a uma mãe não seja nossa presença imediata, mas o respeito ao seu tempo. Porque quando cuidamos da mulher que acabou de nascer como mãe, estamos também cuidando do bebê que acabou de chegar ao mundo. 

 

 

Nos vemos nas próximas linhas! 

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