Minha crônica desta semana é curta e objetiva. Escolhi falar de algo que, na verdade, não me incomoda, mas me confronta. Há pelo menos 34 anos convivo com esse problema. Às vezes, ele se torna mais persistente, mas, ainda assim, lá se vão mais de três décadas tentando entender o que acontece dentro da minha própria casa.
Nos primeiros dez anos dessa longa convivência, investi pesado. Pesado mesmo, na quantidade, pela necessidade e porque os modelos variavam pouco. A cada lançamento, lá ia eu em busca de alguma novidade que se diferenciasse das anteriores, na esperança de evitar desaparecimentos precoces e, se possível, fugir um pouco da tradicional cor branca.
Naquela época, eu ainda contava com a ajuda dos meus filhos para aumentar o mistério.
Minhas crianças tinham uma capacidade impressionante de me afrontar:
insistiam em sair por aí usando suas pequenas companheiras sozinhas, deslizando pelos mais variados tipos de chão, sem qualquer preocupação com as consequências. Eu, por minha vez, passava horas dedicadas àquelas criaturas, incansavelmente, tentando devolver-lhes a dignidade. Era uma batalha diária, da qual eu saía cansada e elas, nem sempre, devidamente limpas.
Os filhos cresceram, foram embora de casa e, por algum tempo, acreditei que o problema finalmente desapareceria. Afinal, sem crianças circulando pela casa, imaginei que a paz e a ordem reinariam nas gavetas. Ledo engano!
Depois da mudança para a nova casa, cuidei de alguns detalhes para facilitar minha rotina, especialmente no que diz respeito ao guarda-roupa. Arrumá-lo, para mim, é uma verdadeira terapia. Nada mais reconfortante do que jogar tudo sobre a cama, pegar peça por peça, dobrar com carinho e avaliar o que foi usado recentemente e o que anda esquecido no fundo da gaveta.
É também uma excelente oportunidade para mudar as coisas de lugar e renovar as combinações, sem necessariamente renovar as peças. Amo roupas antigas. Quanto mais antigas, mais possibilidades consigo enxergar nelas.
Mas voltemos ao enigma.
Com a mudança e uma gaveta planejada especialmente para acomodar as peças menores, imaginei ter finalmente colocado ordem no universo. Até que, nesta semana, ao conferir minha organização, deparei-me com uma cena perturbadora.
Oito.
Exatamente isso que você acabou de ler: OITO unidades sem seus respectivos pares.
Revirei a gaveta. Conferi os cantos. Examinei as outras divisórias. Busquei os últimos calçados usados. Tentei reconstruir os últimos acontecimentos. Nada. Nenhuma pista, nenhum suspeito, nenhuma explicação plausível.
O mais intrigante é que não estamos falando de uma casa movimentada, cheia de crianças, brinquedos e pequenas criaturas escorregando pelos corredores. Trata-se de uma residência onde, teoricamente, tudo deveria estar sob controle.
Eu realmente acreditava que o famoso monstro responsável por esses desaparecimentos só existisse em casas com crianças.
Mas, neste fim de semana, tive de rever minhas convicções.
Ele existe, sim. E está morando aqui em casa e pelo apetite demonstrado, anda muito bem alimentado.
E agora, diante de oito pés solitários, só me resta uma dúvida: será que o monstro tem preferência por pares ou está apenas esperando que eu compre mais algumas para completar a refeição?
Porque, depois de 34 anos, já entendi que certas coisas na vida não desaparecem. Apenas perdem o par.
Nos vemos nas próximas linhas !

