Fui surpreendida por uma professora e seus alunos que, ao saberem da minha estadia aqui na Alemanha por causa da crônica sobre a neve, enviaram vídeos agradecendo a oportunidade de acompanhar a minha escrita — e, especialmente, de verem a foto da nevasca que presenciei aqui em Munique.
Respondi com um vídeo de agradecimento, e eles retornaram mais uma vez, agora com um convite: que eu vá à escola quando voltar para contar tudo o que vi de diferente por aqui.
Fiquei profundamente tocada ao perceber que aquele encontro literário na escola não havia terminado na apresentação dos trabalhos pedagógicos.
O vínculo continuava vivo graças ao incentivo sensível da professora e à curiosidade vibrante das crianças, desejosas de conhecer uma cultura diferente. Como escritora, foi uma surpresa emocionante perceber que a palavra escrita pode atravessar distâncias e permanecer pulsando na vontade de aprender e descobrir o mundo.
Diante deste convite, passei a observar com mais atenção os pequenos detalhes ao meu redor.
Ontem, em um parque, ouvi e avistei vários corvos e imediatamente fiz um vídeo para mostrar a eles.
Hoje, enquanto cozinhava, vi pela janela duas lebres no jardim. Agora aguardo os esquilos, na esperança de fotografá-los e filmá-los para meus atentos espectadores.
Durante o almoço, um fato muito interessante me chamou a atenção. Marcelo contou que há alguns meses salvou um pombo-correio que sofrera um pequeno acidente.
— Como assim, pombo-correio? — perguntei.
Ele falou sobre alguns grupos e, rapidamente, fui pesquisar. Diante de tanta tecnologia, descobri que um recurso medieval ainda é utilizado por estas paragens.
As informações são técnicas, mas vale a pena conhecer:
O sistema de pombos-correio ainda se mantém na Alemanha principalmente devido a uma forte tradição cultural, à paixão por competições (columbofilia) e ao seu reconhecimento como patrimônio cultural imaterial, pela Comissão Alemã da UNESCO. Comemorouse o feito em 2022, já que a Comissão reconheceu a criação de pombos-correio e o repasse de conhecimento sobre eles como patrimônio cultural imaterial, valorizando uma tradição centenária que combina natureza e civilização.
Existem hoje, cerca de 28.000 criadores que participam ativamente da criação dessas aves, treinadas para corridas de longa distância nas quais demonstram velocidade e extraordinária capacidade de retorno, as famosas competições.• Valor Tradicional e Econômico: Trata-se de um hobby com forte valor simbólico e apelo visual. Pombos campeões podem alcançar valores altíssimos no mercado internacional, ultrapassando um milhão de euros.
Também consta nas informações que pesquisei o interesse Técnico e Biológico: O “GPS natural” do pombo-correio, capaz de fazê-lo retornar ao seu pombal original a distâncias próximas de 2.000 km, continua despertando fascínio científico e admiração. O pombo-correio que Marcelo salvou precisava voar mais 200km para retornar ao seu pombal.
Fiquei imaginando a alegria daqueles alunos se eu pudesse enviar-lhes uma pequena carta pelas asas de um pombo-correio, como se faziam na Idade Média.
Seria uma mensagem atravessando céus, rios e fronteiras até chegar às mãos curiosas que aguardam notícias do mundo.
Mas sorrio ao perceber que, hoje, as mensagens chegam instantaneamente pelos áudios e vídeos do WhatsApp. Entre a ave viajante e a tela luminosa do celular, permanece o mesmo desejo humano de comunicar, partilhar e permanecer próximo.
E é esse fio invisível — tecido pela dedicação da professora, pela curiosidade das crianças e pela surpresa desta escritora viajante — que transforma distância em encontro e faz do mundo um lugar um pouco menor e infinitamente mais humano.
Nos vemos nas próximas linhas!

