terça-feira, 18 agosto , 2026

O passado nas prateleiras: Uma paixão por livros que virou negócio

Mesmo com as novas tecnologias, sebos resistem ao tempo e guardam muitas obras que já não se encontram com facilidade.

Willian Reis
Tubarão

Bebe-leite, uma cadela de pelagem cinza e laço de fita na orelha, é quem dá as boas-vindas! “Ela tem mais amigos do que eu”, brinca Vanderli Berri. Dócil aos afagos de quem se depara com ela, a cachorra já se tornou também um personagem do sebo Catedral, tanto quanto aqueles que moram nas páginas dos aproximadamente 35 mil livros que formam o seu acervo.

De portas abertas desde 9 de setembro de 1998, o sebo é um dos três que funcionam na cidade, enfrentando as novas tecnologias, que disputam espaço com o velho livro de papel, e as mudanças no gosto do público. Inspirado na irmã, que toca um famoso sebo em Florianópolis, Berri decidiu também entrar no negócio. Mandou vir um lote de livros de Brusque e deu início às atividades em Tubarão.

Ele poderia ser novo no setor, mas a literatura não era novidade em sua vida. Desde jovem, incentivado pelos pais, ele se vê com os livros em mão. Dono de um gosto eclético, movido por sua personalidade curiosa, Berri se interessa por psicologia, filosofia e clássicos universais da literatura, gente como Émile Zola, Honoré de Balzac e Joseph Conrad. Na sua lista, porém, ainda hoje não podem faltar os gibis.

“Livro é uma paixão. Desde moleque, sempre tenho alguma coisa para ler. Leio de tudo um pouco”, conta. É esta variedade que também se encontra nas estantes do sebo, para atender clientes tanto da região quanto turistas de outros Estados, que não abrem mão de garimpar algum achado em meio ao acervo. Em média, os livros custam entre R$ 4,00 e R$ 20,00, e os técnicos, de literatura estrangeira e sobre espiritualidade lideram as vendas.

 

Vendas cresceram com a internet
O comércio tradicional, na loja de Berri, ainda é a principal fonte de lucro, mas o comerciante diz ter visto o fluxo de venda aumentar desde que aderiu à internet. Em vez de resistir à novidade, decidiu colocar o catálogo do sebo na rede, à disposição de qualquer internauta. “A gente deixa uma cidade com 100 mil habitantes para atender o país todo. A internet abriu portas para lucrar com isso. Ou se adequa ou morre”, defende.
Ele nota também que está aumentando o número de novos leitores. Berri não entrega a quantidade de vendas, mas garante que o negócio é rentável. “Cada vez mais vale a pena”, diz. Outro alento para as contas são os LPs, que há alguns anos se tornaram praticamente objeto de adoração entre os amantes da música. Público de sebo parece ser quem se nega a aderir à novidade dos leitores digitais, como o Kindle. Um símbolo dessa resistência pode ser uma antiga caixa registradora, ainda em funcionamento na loja de Berri. A peça – motivo de cobiça de outros vendedores – tem mais de 80 anos.

 

Comerciante prefere se concentrar no público jovem
A Casa do Livro, na esquina das ruas Tubalcain Faraco com a Lauro Müller, no centro de Tubarão, prefere ir na contramão. Ao contrário dos outros dois sebos, a dona, Adriana Nascimento, não vende pela internet. De olho em um público específico, ela está mudando a cara de sua loja. Diante de tanta procura, Adriana dá preferência agora a livros mais recentes, de autores que fazem a cabeça dos mais jovens. “Estou indo por um caminho diferente”, conta ela, há 13 anos no setor. Como é um público mais ligado nas novas tecnologias, ela adota preços um pouco mais abaixo que o da internet, com a vantagem de não ter taxa de entrega. Seu acervo de 60 mil livros possui obras que chegam, no máximo, a R$ 40,00. Leitora desde os 14 anos, Adriana sai de Braço do Norte só para renovar sua lista de livros. Obras que custariam R$ 10,00 ali ela encontra por menos da metade do valor.

 

Preços variam de R$ 0,50 a mais de R$ 1,8 mil
Muito do acervo dos sebos vem de trocas com os clientes. Há obras recentes ou edições mais antigas, às vezes deterioradas pela ação do tempo, para as quais os vendedores pensam não ter mais compradores, mas mesmo assim se enganam. No sebo Paixão de Ler, na avenida Marechal Deodoro, há 120 mil livros empilhados nas estantes, muitos dos quais à espera de serem catalogados.

Uma das vantagens dos sebos é ter à disposição livros que já saíram do mercado convencional. No Paixão de Ler, há obras que custam R$ 0,50 e outras cujo valor ultrapassa R$ 1,8 mil. É o caso de uma rara obra espanhola com fotos antigas daquele país.

“É um mercado crescente”, pontua a proprietária, Nelcir Miglioli, no ramo há dez anos. Com pós-graduação na área de formação de novos leitores, em um momento ela achou que os livros de papel iriam mesmo acabar. Eles não só continuam na praça, como são vendidos principalmente pela internet, no caso do Paixão de Ler. Todos os dias, um carro dos Correios passa para recolher as encomendas. “Se quisesse, podia ficar só no virtual”, diz.

Nelcir chega a passar 18 horas no sebo, às vezes sem se dar conta. “É um lugar místico. Por quantas mãos estes livros passaram, quantas histórias”, enumera. Enquanto apresenta o acervo, a comerciante diz que o tubaronense prestigia pouco espaços como este. Em uma ou outra prateleira, há um letreiro com a frase “Eu amo ler”.

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