Sempre naquela época era motivo de festa para as pessoas mais simples. Observavam-se nos barzinhos, confraternizações regadas a churrasco quentinho e cerveja gelada. Homens, que quase nunca eram vistos circulando nos bairros, de repente surgiam para o mundo em diversos lugares, no mesmo dia, na mesma semana. Traziam consigo sorrisos eloquentes e contagiantes, apertos fortes nas mãos, beijinhos nas criancinhas acompanhados de pirulitos e pipocas. Até mesmo o Zé Preá, que vivia sendo escorraçado dos botecos por não ser fã do chuveiro e, pela falta de grana para arcar com a pinga consumida, recepcionavam-no com tapete vermelho naqueles dias.
O mais simpático conhecido desaparecido que aparecia de tempos em tempos naquele bairro é o Zé Clementi. Ele tinha desde jovem o apelido de ‘Menti’. Os amigos mais chegados diziam que esse epíteto era uma abreviação carinhosa do seu nome e uma alusão a sua poderosa mente. Alegavam que ele tinha um QI de 120 (quociente de inteligência). Outros, que não eram tão amigos assim, afirmavam que essa alcunha fazia referência às promessas políticas não honradas por ele. Até existia uma frase conhecida pelos populares que dizia: ‘Como menti o Zé Clementi’. Nenhuma das duas versões ficou comprovada. Nem o fato de ele ser um mentiroso, muito menos a sua grande capacidade intelectual. Como todo bom político, ele era amado e odiado na mesma proporção.
Naquela tarde de setembro, quando chegou ao bar do Barbosa, praticamente quatro anos após a sua última estada ali, os que o amavam, em pouco tempo já estavam sentados na mesa do boteco ao seu lado. A conversa apresentava-se variada, mas, os finalmente do debate eram sempre enaltecendo os feitos políticos daquele que ao final da conversa seria o anfitrião. – Eu gosto do ‘Menti’ porque ele nunca deixou de cumprimentar a gente, mesmo depois de eleito – Disse Pedro Barulho. Pedro é seu nome. Barulho fazia referência a uma lambreta velha e barulhenta que ele tinha adquirido quando se aposentou, no início dos anos 80. Até hoje, não havia conseguido trocar por um modelo mais novo, devido à defasagem do valor de sua aposentadoria. Sobrava-lhe apenas para comer e beber e sua idade avançada já não lhe traziam ânimo para progredir.
Pedro Barulho e Zé Preá eram homens simples do bairro, sendo constantemente ignoradas pelas pessoas que se achavam superiores a eles, por terem mais dinheiro ou posição social. Receber um simples sorriso ou um aperto de mão de um político, para os dois, era se sentir gente, sentir-se humano. E isso somente acontecia na época de eleição com o poder individual do voto. – Realmente, ele sempre foi um bom deputado pra nossa comunidade! – Balbuciou Zé Preá, que já tinha tomado algumas doses, de raiz amarga com cachaça. – Mas o ‘Menti’ não é deputado, ele é vereador! – Completou Pedro Barulho. – Isso não importa o que vale é que ele ‘tá’ aqui com a gente.
Se ‘criemu’ tudo junto desde criança. A minha falecida nona é prima segundo da tia do nono dele. ‘Tá’ tudo em casa. Ouvindo as palavras de manifestação a seu favor, o instinto político de ‘Menti’ falou mais alto. Levantou-se da cadeira e, como se estivesse discursando (realmente parecia estar), falou: – De fato, eu sou um homem simples e gosto de estar no meio do povo, do meu povo! Essas poucas palavras foram motivos de intensos aplausos. Mas a verdade é que ‘Menti’ não aparecia na comunidade há praticamente quatro anos. Sua última aparição no local coincidia com as vésperas das últimas eleições municipais. Mas o povo não se atentou a esse detalhe. Sabiam que era época de pleito, porém, estavam somente preocupados em conquistas individuais e a presença de um político era vista como oportunidade de negócios pessoais. (Continua na edição de amanhã).

