Se tem uma coisa que eu amo na vida é dirigir por estradas que me permitam escutar uma boa música, de preferência em um volume mais alto, especialmente quando estou sozinha.
Esta semana, enquanto seguia do Camacho para Tubarão pela estrada da Congonhas, parei o carro para registrar o nascer do sol. Fiquei ali em silêncio, sentindo a brisa fresca e tentando enxergar com nitidez os raios que ainda lutavam para atravessar a névoa teimosa, estendida sobre a paisagem.
Permanecer ali, sem me preocupar em contabilizar os minutos que estava “perdendo”, despertou em mim uma sensação diferente. Havia acordado daquele jeito, embora ainda não soubesse explicar como. Apenas sentia.
Dei partida no carro. No rádio, uma programação de músicas vintage me fez cantar junto, aproveitando que não havia ninguém para julgar minha afinação. Quanto mais alto eu cantava, mais leve e feliz me sentia. Depois de soltar a voz — de “taquara rachada”, segundo meu irmão — ao som de Celebration, do Kool & The Gang, veio a música seguinte. E foi aí que aconteceu algo que eu não esperava.
Os primeiros acordes provocaram um estranho revirar no estômago. Não era enjoo. Era uma sensação conhecida, embora difícil de explicar.
A mesma que sinto quando vejo um tecido de anarruga ou uma cor que imediatamente me transporta para as décadas de 70 e 80, tão presentes nas roupas que usei naquela época.
Então começou All Out of Love, do duo australiano Air Supply.
Minha voz simplesmente travou. Aquele revirar parecia dançar dentro de mim. Lentamente, a sensação subiu do estômago até a garganta, onde encontrou um limite. Não era dor. Não era alegria. Não era tristeza. Era algo que falava comigo.
Fiquei imaginando qual caminho aquela emoção escolheria. Iria primeiro ao coração? Ou ao cérebro, para que ele entendesse o que estava acontecendo?
Talvez tenha sido exatamente isso. Primeiro o cérebro reconheceu o que eu ainda não conseguia nomear. Depois enviou a resposta ao coração. Foi então que senti uma pontada rápida, delicada, que tinha nome: saudade.
Minhas mãos permaneciam firmes na direção, mas meus olhos insistiam em acompanhar o velocímetro, que diminuía a cada acorde. Tentei me concentrar na estrada.
Olhei a paisagem e, sem perceber, comecei a sorrir. As lembranças dos meus dezessete anos vieram sem pedir licença.
Reconheci, enfim, o que aquela música despertava. Eram os anos fascinantes da minha juventude e de quando a música fazia parte de todos os dias: das festas americanas, das baladas, dos bailes em que ainda existia a deliciosa expectativa de dançar uma música lenta.
Do coração, aquela emoção alcançou minha alma. Meus olhos marejaram e eu chorei um choro bom, daqueles que parecem lavar a gente por dentro. Se pudesse, teria voltado a música e vivido tudo outra vez aquele momento.
Em vez disso, desliguei o rádio. Parei o carro perto de um rio, contemplei a paisagem do alto do morro e fiquei pensando no poder que um tecido, uma cor ou uma simples canção têm de despertar emoções que imaginávamos adormecidas.
Pode parecer cafona para alguns. Talvez seja.
Mas essa pequena descoberta me lembrou que nossas lembranças nunca desaparecem. Elas apenas ficam guardadas, em silêncio, esperando o acorde certo, a cor certa ou o instante certo para voltar à vida.
E você? Existe alguma música que, ao tocar, faz a sua alma se lembrar de quem você foi?
Nos vemos nas próximas linhas!

