Na noite anterior, avisei aos filhos que meu domingo seria dedicado ao jardim, eximindo-me, inclusive, do almoço. Mas o dia amanheceu chuvoso. Aproveitei para esticar um pouco mais na cama e, por volta das dez, levantei e tomei meu café. Eu me preparava para ir para a rua quando a chuva deu uma trégua e o sol, ainda tímido, tentou aparecer.
Marina, que ainda tomava café, perguntou se eu poderia voltar depois apenas para picar a cebola. Naquele instante, lembrei da mamãe e da saudade dos almoços em que ela picava a batata enquanto eu ficava com a cenoura. Ela cuidava do pimentão; eu, da cebola. Dividíamos as tarefas entre um gole de cerveja e outro. Ríamos, conversávamos muito e sempre ouvíamos as músicas que ela amava.
Senti que aquele pedido da Marina escondia um convite para um bom papo,
ainda mais depois de ela ter retornado de dois anos de estudos no estado vizinho, o Rio Grande do Sul. Fui lá fora, organizei as coisas e já voltei com a desculpa perfeita: picar a cebola.
Na cozinha, o momento virou um deleite. Olhei para o jardim e pensei na mamãe. Depois, voltei minha atenção para a tábua, onde os temperos seriam cortados um a um, com calma. Aproveitei para picar a batata e preparar a maionese — que, para os três, nem combinava tanto, mas, àquela altura, tudo combinava, tudo se entrelaçava. Seguimos com um papo leve, uma música incrível e um gole e outro da cerveja que ela havia escolhido.
Preparei o molho caseiro preferido dela, enquanto o tempo agora corria sem pressa. A ela coube a montagem do prato, a parte mais delicada. Corri até o quarto e pedi ajuda ao mano, já que a pia precisava de alguém forte no comando.
Louça lavada, lasanha no forno e a conversa ficou ainda melhor, agora a três, ao som de uma playlist de respeito. Quando finalmente cheguei ao jardim, já passava das três.
Fui com uma certeza: se, de um lado, atrasei o trabalho de jardinagem, do outro garanti algo muito maior — uma memória afetiva para nós.
É curioso como a sensação de ter aproveitado cada instante, mesmo com os filhos já adultos, é tão extraordinária que dá vontade de compartilhar. Por isso escrevo.
No entardecer, um café moído na hora, servido com pão quentinho e manteiga, marca registrada do Xande que preza pela qualidade deste momento e sem seguida, duas partidas de canastra. Para finalizar a noite, uma fatia de pudim de claras feito por ela, que chegou cheia de novidades, sorrisos e afeto.
São momentos assim — simples, nada complexos, mas profundamente completos.
Completos de amor, de conversa, de presença e de respeito. Aqui, a complexidade cede espaço à simplicidade, que termina em cumplicidade.
E você, quais memórias afetivas estão sendo construindo com quem ama?
Nos vemos nas próximas linhas!

