sexta-feira, 10 julho , 2026

O SOS e o satélite

SOS é a sigla que, telegrafada no código Morse, durante o século passado, salvou da morte milhares de pessoas, nos afundamentos de centenas de navios. Muitos desses desastres não ocorreram porque, com o sinal de SOS, outros navios eram alertados quanto a situações de perigo ou emergência, seja em relação a temporais ou à presença de icebergs e outros obstáculos.

A escolha das letras aconteceu por conta da facilidade de enviá-las e reconhecê-las, mesmo por operadores sem treinamento em código Morse. A sigla consiste de três pontos (a letra “S”), três traços (a letra “O”” e novamente três pontos (…—…), sem os espaços que o código Morse normalmente intercala entre as letras.
Instituído pelo governo alemão nos seus regulamentos de rádio, em abril de 1905, foi adotado como padrão mundial na 2ª Convenção Internacional de Radiotelegrafia, em novembro de 1906, começando a ser usado, de fato, há 100 anos, a partir de julho de 1908.

Até então, no mar, os navios em perigo pediam por socorro usando as iniciais CQD. CQ era o sinal usado para chamar todas as estações, e D era a letra acrescentada para indicar “distress”, aproximadamente “situação de perigo”.
Em função dos avanços tecnológicos, que hoje permitem rastreamento por satélite, o velho SOS foi oficialmente aposentado às 23:59 UTC do dia 31 de janeiro de 1999, quando a Rádio Melbourne realizou a transmissão final em código Morse ao seu Serviço Móvel Marítimo.

Thomas Huxley, avô do também notável escritor Aldous Huxley, cunhou uma frase, em seu livro Collected Essays, Biogenesis and Abiogenesis, que se tornou justamente célebre: “A grande tragédia da ciência: o massacre de uma bela hipótese por parte de um horrível fato”. Esta frase encaixa-se perfeitamente nas versões que foram dadas para explicar o significado da sigla, dando-se ao SOS as mais diversas origens.

Diferentemente das inúmeras e “belas hipóteses” correntes na internet, como “Save Our Souls” (salvem nossas almas); “Save Our Ships” (salvem nossos navios); “Survivors On Ship” (sobreviventes no navio); “Save Our Sailors” (salvem nossos marujos); ou “Stop Other Signals” (parem outros sinais), o “horrível fato”, a que se refere, no caso, Thomas Huxley, resume-se a pontos e traços, cuja facilidade de transmissão irradiou-se da Alemanha para o mundo inteiro.

Os adeptos das “belas hipóteses” também gostam de afirmar que o sinal de SOS foi usado pela primeira vez no naufrágio do Titanic, na madrugada entre os dias 14 e 15 de abril de 1912, quando esse tipo de transmissão já funcionava há quatro anos! Mais uma vez, o “horrível fato” é menos charmoso. O primeiro navio a enviar um SOS via rádio foi o incógnito e sem-graça Arapahoe, em 11 de agosto de 1909, quando estava perdido em Cape Hatteras, North Carolina, nos EUA.

Para a filósofa Marilena Chauí, a ciência “é um instrumento capaz de transformar os mistérios da realidade numa realidade sem mistérios”. No entanto, nesse processo de desencantamento, perde-se algo, abdica-se da inocência, da fantasia, troca-se a poesia pela prosa, o lúdico perde para o concreto, a magia cede à razão.
Pensando bem, melhor assim…

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