COLUNISTAS | AOS 45 | KARINE MENDES
Notisul | 16 de junho de 2026
Vou ser direta.
Não gosto da Argentina. Da rivalidade, do estilo, daquela forma que eles têm de celebrar que me dá nos nervos. Acho que todo brasileiro entende exatamente o que estou dizendo.
Mas fui pesquisar. Quis entender de onde vem essa rivalidade de verdade. Porque a gente vive ela, sente ela, mas raramente para pra perguntar: por quê?
E o que descobri foi que essa briga começou antes do futebol existir.
Antes do Brasil e da Argentina terem nome. Quando Portugal e Espanha disputavam os territórios da América do Sul como quem disputa um campo que ainda não tinha regras.
A Guerra da Cisplatina, em 1825, foi o primeiro grande conflito territorial entre os dois países. O Uruguai, que hoje existe como nação, nasceu justamente desse embate.
Ficou no meio, literalmente.
Quando o futebol chegou, no início do século 20, a rivalidade já estava formada. O primeiro clássico oficial aconteceu em setembro de 1914, em Buenos Aires. Argentina ganhou por 3 a 0.
Mais de um século depois, o placar histórico é quase um empate. Quarenta e três vitórias do Brasil, quarenta e uma da Argentina, vinte e seis empates, segundo a CBF.
Uma rivalidade construída jogo por jogo, geração por geração.
Pelé contra Maradona. Ronaldo contra Batistuta. Neymar contra Messi.
Eu gosto dessa rivalidade. Muito. Gosto da briguinha, do calor, do que ela representa no esporte.
Mas tem uma coisa que essa rivalidade não me autoriza a fazer.
Fechar os olhos para o que está acontecendo agora.
A criança que quase não chegou
Lionel Andrés Messi nasceu em 24 de junho de 1987, em Rosário, Argentina.
Filho de operário de fábrica. Neto de uma avó que o levava pra assistir o Newell’s Old Boys e que morreu quando ele tinha onze anos. Messi dedicou seu primeiro gol profissional a ela. Nunca esqueceu.
Aos dez anos, foi diagnosticado com deficiência no hormônio do crescimento. Precisava de injeções diárias. O tratamento custava mil dólares por mês, muito além do que a família conseguia pagar.
O Newell’s queria ele, mas não pagava o tratamento.
O River Plate fez testes, gostou, mas também não bancou.
Então o Barcelona entrou. Fez um teste de trinta minutos. O diretor de futebol ficou tão impressionado que, sem papel disponível, assinou o contrato num guardanapo e assumiu o custo do tratamento completo.
Messi tinha treze anos. E foi morar na Espanha praticamente sozinho.
Estreou profissionalmente em outubro de 2004, aos 17 anos, contra o Espanyol. Desde então, mais de duas décadas construindo a maior carreira que o futebol já viu.
Os números que o futebol não esquece
Vou colocar os dados na mesa. Porque é aqui que a rivalidade precisa parar e o respeito precisa começar.
8 Bolas de Ouro.
O recorde absoluto. Ninguém chegou perto.
Mais de 900 gols na carreira.
672 pelo Barcelona. 116 pela Argentina. 90 pelo Inter Miami. 32 pelo PSG. Verificado em múltiplas fontes até maio de 2026.
Mais de 40 títulos.
Quatro Champions League. Duas Copas América, 2021 e 2024. Uma Copa do Mundo.
Três Mundiais de Clubes. La Liga dez vezes. Entre muitos outros.
Com o Barcelona ao lado de Xavi e Iniesta, formou o meio de campo mais elegante que o futebol europeu já viu. Em 2014-15, o MSN com Neymar e Suárez marcou 122 gols na La Liga, recorde histórico.
E foi fiel à Argentina quando a Argentina não merecia fidelidade. Perdeu Copa América em 2007, em 2015, em 2016. Sofreu crítica de própria torcida. Foi chamado de traidor porque não cantava o hino. Anunciou aposentadoria da seleção depois de uma final perdida.
E voltou.
Porque ele não desistiu de uma taça. Ele não desistiu de um povo.
O que as Copas fizeram com ele. E ele fez com as Copas.
A história de Messi nas Copas do Mundo é uma das mais dramáticas do futebol.
2006, na Alemanha: estreou aos 18 anos, fez 1 gol, a Argentina foi eliminada nos pênaltis.
2010, na África do Sul: a Argentina de Maradona como técnico foi destruída pela Alemanha nas quartas. Messi não marcou um gol sequer. Saiu carregando o peso de uma geração inteira.
2014, no Brasil: quatro gols, final contra a Alemanha. Argentina perdeu por 1 a 0 na prorrogação. Messi ganhou a Bola de Ouro do torneio. E foi a premiação mais triste da história, porque ninguém ganha a Bola de Ouro com cara de quem perdeu tudo.
2018, na Rússia: Argentina quase não se classificou. Messi fez 1 gol, contra a Nigéria, que salvou a classificação. Caíram para a França nas oitavas. Fim.
E então veio 2022.
O Catar.
2022. A Copa que o mundo parou pra ver.
Messi tinha 35 anos. Todo mundo sabia que era a última chance real.
A Argentina perdeu o primeiro jogo para a Arábia Saudita. O mundo inteiro decretou o fim da história.
E então algo aconteceu que o futebol raramente oferece:
Um jogador pegou uma Copa nas costas e carregou até o fim.
Sete gols. Três assistências. Gol em todas as fases do torneio, algo que não acontecia desde Jairzinho em 1970. O jogador com mais partidas disputadas em toda a história das Copas: 26 jogos.
Na final contra a França, marcou duas vezes no tempo normal. A França empatou com um hat-trick de Mbappé. Messi marcou na prorrogação. França empatou de novo. Nos pênaltis, Messi bateu. Entrou.
A Argentina era tricampeã do mundo.
E Messi, com 35 anos, depois de dezesseis anos de espera pela Argentina, caiu no chão do estádio em Lusail e chorou.
Eu vi aquela cena e não consegui não sentir alguma coisa.
Mesmo não gostando da Argentina.
Porque aquilo não era futebol. Era uma vida inteira chegando num lugar que ela quase não chegou.
16 de junho de 2026. Noite em Kansas City.
Messi completa 39 anos no dia 24 de junho. Dentro desta Copa do Mundo.
É sua sexta participação em Mundiais. Recorde, dividido com Cristiano Ronaldo.
Chegou a 2026 com 13 gols na história das Copas. Precisava de três para igualar Miroslav Klose, recordista com 16.
Hoje à noite, em Kansas City, na estreia da Argentina contra a Argélia, aconteceu o seguinte:
Aos 17 minutos, Messi recebeu de De Paul, arriscou de fora e fez o primeiro. Décimo quarto gol em Copas.
Aos 60 minutos, aproveitou um rebote dentro da área e fez o segundo. Décimo quinto gol. Igualou Ronaldo Fenômeno.
Depois, com a partida encaminhada, completou o hat-trick. Décimo sexto gol.
Igualou Miroslav Klose. O recorde absoluto de todos os tempos na história das Copas do Mundo.
Argentina 3 a 0. Messi saiu aplaudido pelo estádio inteiro.
E eu, brasileira que não gosta da Argentina, parei o que estava fazendo pra ver.
O que a rivalidade não pode fazer
Rivalidade é boa. Rivalidade é saudável. É o que faz o esporte ser maior do que o resultado.
Mas rivalidade não pode ser cegueira.
Messi não se envolveu em polêmica de vestiário. Não criou drama fora de campo. Não precisou de holofote para existir dentro dele.
Ele simplesmente jogou. Por mais de duas décadas.
E quando o Brasil parou em 2022 e torceu contra a Argentina na final, havia lá um menino de Rosário que vinte e seis anos antes tinha tomado uma injeção pra poder crescer e que agora ia erguer a taça mais pesada do futebol.
Não torci pra ele. Sou brasileira.
Mas assisti.
E qualquer pessoa que ama futebol de verdade assistiu também.
Porque tem momentos em que o esporte é maior do que a bandeira.
E Messi, ao longo de toda a sua carreira, foi maior do que a rivalidade.
Todo brasileiro devia admitir isso.
Não precisa gostar. Não precisa torcer.
Mas admirar? Esse a gente deve.
Por Karine Mendes | Coluna Aos 45 | Notisul | 16 de junho de 2026