sábado, 11 abril , 2026

Patrícia Goto: “A depressão compromete tudo”

A psiquiatra Patrícia Leiko França Goto, 35 anos, é natural de São Paulo, onde se formou em medicina e fez residência. Os seus primeiros trabalhos foram em hospitais paulistas. Em Londrina (PR), trabalhou em um hospital psiquiátrico e abriu um consultório. Desde 2005, atende em Tubarão, na clínica Pró-vida e no consultório próprio. A médica atende um quadro variado de doenças mentais, mas seu trabalho concentra-se em tratar casos de depressão e transtorno de ansiedade. A preocupação das pessoas com a qualidade de vida levou-as para seu consultório, em busca da cura de doenças que não eram levadas a sério.

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – Desde o início dos anos 2000, e um pouco da década de 90, fala-se em depressão. Trata-se de uma doença da atualidade?
Patrícia Goto
– A depressão é uma doença que já existe há muitos anos. Mas agora, em função do ritmo de vida das pessoas e da sobrecarga do trabalho, tornou-se mais evidente. Se você trabalha muito, consegue ter um padrão de vida que antes não se tinha. Isso aí tudo gera uma sobrecarga. Aqui no sul do país, as pessoas preocupam-se mais com qualidade de vida. Na minha clínica, não atendo muitos casos de psicose, mais quadro de depressão e ansiedade. Mas eu acho que hoje se fala mais da doença, por isso se tornou mais em evidência. É uma doença antiga, mas o auge é agora, por causa do ritmo de vida das pessoas. Mas também é certo que as pessoas procuram mais tratamento.

Notisul – Quem é mais suscetível a depressão?
Patrícia Goto
– A mulher, na faixa etária em torno dos 40 anos. Em todos os casos, cerca de 50% acontece entre 25 e 40 anos. Agora, os estudos apontam uma incidência maior em adolescentes e adultos com menos de 20 anos. A causa disso pode ser o contato com as drogas e o álcool.

Notisul – Existe algum estudo que aponte por que a mulher é mais suscetível?
Patrícia Goto
– Não tem nada comprovado. Mas acredita-se que é por causa da questão hormonal e a dupla jornada de trabalho. A mulher tem marido, filho, trabalho, casa. É mais desgastante. Quanto ao fator hormonal, temos a menopausa, que contribui bastante.

Notisul – Você atende mais casos de depressão?
Patrícia Goto
– É bem variado. Atendo de tudo, desde esquizofrenia, transtorno bipolar, até crianças que vem com indicação de algum colega. É bem misturado. Às vezes, as pessoas vêm e dizem: “Eu vim porque eu tenho uma depressão”. E eu digo que ela não tem depressão. Ela pode ter algum sintoma da doença, mas não todo o quadro.

Notisul – Quais são os sintomas?
Patrícia Goto
– A depressão é uma variação de humor e dura umas duas semanas um humor mais depressivo. O que eu caracterizo como principal do quadro depressivo é o prejuízo funcional. Você tem uma dificuldade no contexto geral, social, afetivo e laboral. É uma doença que você não está boa para sair ou para trabalhar. A depressão compromete tudo. Você não tem vontade de fazer nada. Os sintomas principais são humor deprimido por pelo menos duas semanas, sono excessivo, diminuição da concentração, redução da libido nas mulheres, dificuldade de memorizar. Todo mundo fala que depressão é vontade de chorar e ficar na cama. Não é isso. Tenho um paciente que não tem vontade de chorar, mas tem outros critérios, como falta de concentração. Para ele, nada está bom, falta disposição e vontade. São sintomas que somam. Na depressão, o peso também oscila. Ou ganha peso ou perde peso.

Notisul – Também tem se falado muito em transtorno bipolar. Como é esta doença?
Patrícia Goto
– O transtorno bipolar tem a fase depressiva. Muitas vezes, o paciente vem no consultório e, se não é feito um diagnóstico bem detalhado, passa por uma depressão. Porque veio para cá numa fase depressiva. Por isso precisamos levantar um histórico e saber como era antes. O que caracterizam o bipolar são os dois polos: a depressão e a euforia. Muitas vezes, a pessoa só vem na fase depressiva. Porque quando está eufórica ela gosta: está ativa, elétrica. Na verdade, essa pessoa não tem uma depressão, mas um transtorno bipolar. E ela se encontra na fase depressiva. As pessoas confundem muito. Elas acham que basta tomar antidepressivos e vão melhorar. Mas precisam tomar um estabilizador ou um ansiolítico. Tem que usar mais de uma medicação nesse caso.

Notisul – Qual o tratamento para depressão e transtorno bipolar?
Patrícia Goto
– O acompanhamento ideal é procurar um especialista. A gente não aconselha a fazer o tratamento com um clínico geral ou com um médico de outra especialidade. O certo é se tratar com um psiquiatra. O tratamento consiste em medicação, com os psicotrópicos, e fazer uma terapia. Mas é o profissional que vai indicar a melhor hora oara ir a uma terapia. Porque se você está muito depressivo não absorverá muito a terapia. Tem que estar melhor do quadro para depois ser encaminhado para uma terapia. O transtorno bipolar também. É medicação é outro tipo.

Notisul – A terapia no caso seria com um psicólogo? Qual é recomendado: consultar-se primeiro em um psicólogo ou psiquiatra?
Patrícia Goto
– As pessoas têm preconceito quanto a irem ao psiquiatra e vão ao psicólogo. Se é um psicólogo com um feeling legal, ele já consegue ver que a coisa não é séria e precisa de outro profissional. Ele sente que tem que encaminhar esse paciente para um médico. Geralmente, quando é a família que leva o paciente, a mãe ou o irmão encaminham para o especialista. O certo é ir primeiro no médico. O tratamento ideal une a psicologia com a psiquiatria: medicação e psicoterapia de apoio.

Notisul – Como a família de um depressivo ou bipolar deve encarar a situação?
Patrícia Goto
– Na psiquiatria, costumamos falar que todas as doenças envolvem toda a família. No quadro depressivo, muitas vezes a pessoa não quer fazer nada e deseja ficar jogada. Então, é uma doença que pega toda a família. Todo mundo quer ver a melhora porque sofre junto. É diferente de uma dor que pode ser curada com uma simples medicação. Na depressão, a medicação demora para fazer efeito, geralmente de quatro a seis semanas. Agora, a forma que você tenta lidar com a situação varia bastante. Às vezes quem tem depressão ou transtorno bipolar tem outras patologias secundárias. Cada caso é um caso.

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