sexta-feira, 2 outubro , 2026

Persuadidos da própria causa

Em humanos e animais, a capacidade de pensar é tema muito estudado. Charles Darwin – não é por acaso que algumas pessoas marcam a História – estudou, entre outros, o “pensamento” das minhocas.

Darwin colocava papéis recortados em forma de cunha próximo às tocas desses anelídeos. Bem, eles escolhiam conduzir os papeis ao interior da toca pela ponta aguda, facilitando seu ingresso nos buracos.

Há, pois, “inteligência” incipiente nas minhocas. Mas, haveria pensamento? O Houaiss define pensamento como a “faculdade que tem como objetivo o conhecimento”. Não concordo com “tem por objetivo”.

Pensamento é propriedade característica de alguns organismos. As faculdades de um organismo não possuem finalidade intrínseca. Admitir finalidade é compreender os organismos como criação.

Pelos milênios de evolução, restamos com certos atributos, entre os quais está o pensar. Pensar, pois, é uma característica final (restamos com ela), não é um projeto inicial (desenho com objetivo).

Da minhoca ao cachorro. Cachorro pensa? Alguns estudos afirmam que sim. Eles sabem, mas não sabem que sabem. Pensam rudimentarmente e não conseguem pensar sobre o próprio pensamento.

Os mamíferos “inteligentes” têm emoções básicas: amor, saudade, satisfação, medo, asco, alegria, raiva, susto. Esses animais não possuem os sentimentos morais: culpa, orgulho, desprezo, vergonha.

O pensamento humano não é “puro”, mas valorado. Não é denotado, mas conotado. Contém subjetividades e é emocionado. Carrega nossas convicções. Não conseguimos ter um pensamento neutro.

Descartes (1596 – 1650) propôs que suspeitemos de tudo o que pensemos. Ele desconfiou até da própria existência. Concluiu que existia porque, afinal, pensava: “Penso, logo existo”.
Espinosa (1632 – 1677) foi o primeiro filósofo a avisar de que corpo e mente são coisas inseparáveis: o corpo pensa. Propunha uma ética demonstrada e que fossemos racionais para escolher a “melhor vida”.

Afrontou a superstição e a metafísica. Arrostou as verdades religiosas. Não acreditava em livre-arbítrio. O presente sempre seria advindo de causas anteriores sobre as quais não incidimos.
Defendia, contudo, que podemos agir e reagir, compreendendo as ideias e submetendo as paixões à razão. Eu diria: pensava o próprio pensamento. Ele tentava orientar-se às ideias “adequadas”.

Espinosa prestigiava o conhecimento: “único bem verdadeiro”. Somos alegres ao conhecemos que conhecemos; somos lúcidos ao sabemos as razões de certas situações ou pessoas nos afetarem.

Saberes distintos do meu, portanto, não são, a priori, certos ou errados. Ao avaliar com desdém outros pensamentos, demonstro afetos ruins. Não me elucido; não me alegro; não aprendo.
Os termos racionais de Espinosa são difíceis. Nietzsche, não obstante, exige mais: desprezando crentes e crenças, deseja que aprendamos a pensar na contramão de nossas convicções.

“Uma convicção é a crença de estar, num ponto qualquer do conhecimento, de posse da verdade absoluta […] A hipótese prévia de todo crente de qualquer tendência era não poder ser refutado;
Não foi a luta das opiniões que tornou a história tão violenta, mas o conflito da fé nas opiniões, ou seja, das convicções” (Humano, Demasiado Humano, §630). Eis a contenda dos “caluniadores da razão”.

Minhocas fazem escolhas. Cachorros pensam, mas não sabem que pensam. Humanos pensam e sabem que pensam; em geral, todavia, não pensam sobre o próprio pensar. Antes, tomam-se de convicção.

O Brasil está tomado de persuadidos da própria causa. Soberba. Foros de certeza são violentos; convictos violentam a razão. O debate público brasileiro precisa de mais aprendizado e menos convicção.

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