segunda-feira, 15 junho , 2026

Piadas e tentativa de acalmar reféns: mais de 3 horas no ônibus sequestrado

Ao contrário do que o senso comum dita sobre o perfil de um sequestrador, Willian Augusto da Silva, 20, tentou manter a tranquilidade de todos os reféns durante o sequestro do ônibus 2520 Alcântara x Estácio na manhã de ontem (20), segundo relataram ocupantes do coletivo. Ele anunciou o crime na altura da Ilha do Mocanguê, próximo ao vão central da ponte Rio-Niterói, por volta das 5h.

Em um primeiro momento, pensaram ser um assalto. A maioria escondeu celulares e carteiras embaixo dos bancos, para tentar evitar perder os pertences. Ao perceber o desespero dos passageiros, Willian, que acabou sendo baleado por um atirador da Polícia Militar, explicou que não era um assalto, mas um sequestro. “Eu não quero machucar ou levar os pertences de vocês, só quero entrar para a história. Ao fim do dia, vocês vão ter muita história para contar”.

O sequestrador escolheu uma das passageiras para auxiliá-lo. Ela foi responsável por prender braçadeiras de plástico nos reféns e também por esticar o fio de barbante, onde posteriormente Willian prendeu garrafas pet com um líquido supostamente inflamável.

Apesar de parecer um crime bem planejado, como apontou Antônio Ricardo Lima Nunes, chefe do Departamento Geral de Homicídios e Proteção à Pessoa, Willian disse aos reféns que abordou o ônibus errado.

Em nenhum momento, segundo passageiros, o sequestrador ameaçou fazer vítimas fatais. Para evitar o risco, ele disse que planejou sequestrar um ônibus com menos pessoas a bordo, que tinha como destino final o bairro de Campo Grande, na zona oeste carioca. Sem explicar por que decidiu abordar o 2520, Willian deu seguimento ao plano.

Ainda que com a limitação das mãos, passageiros mandaram mensagens para maridos, esposas, amigos e familiares. Willian incentivava o uso dos aparelhos e, em certo momento, pediu inclusive um celular com TV: ele queria ver a repercussão do caso nas emissoras. Testemunhas afirmam que, em vários momentos, Willian ficou de costas para os reféns, olhando por muitos minutos para o celular ou muito entretido com um rádio comunicador que utilizava para falar com a polícia.

O sequestrador pediu que a “passageira auxiliar” escrevesse a frequência do rádio no vidro do ônibus, para que a polícia pudesse entrar em contato. Ao falar com policiais, via rádio, ele perguntava a todo momento “em que altura estava o engarrafamento”. A dúvida era porque a missão dele também era relembrar o assalto ao ônibus 174, em 2000, e “parar o estado”.

Para dar o mínimo de informações possíveis para a polícia, Willian pintou com tinta preta em spray o vidro dianteiro e o vidro da porta lateral do veículo. No momento, com o cheiro forte, algumas vítimas passaram mal. Preocupado, segundo as testemunhas, ele tratou de pedir água à polícia e cuidar para que elas se recuperassem.

Willian se preocupou ainda com as necessidades fisiológicas dos reféns. Aos primeiros sinais de mulheres que queriam ir ao banheiro, o sequestrador pediu para que os últimos bancos fossem liberados para serem transformados em banheiro.

Foi neste momento que os passageiros até ouviram o rapaz contar piada. Quando um dos rapazes foi urinar, Willian brincou: “Minha mão está limpa, quer que eu balance?”. Em outro momento, ao ver um senhor reclamar de dores na perna, o sequestrador sugeriu: “Quer correr um pouco aqui?”, apontando para o corredor do veículo.

O momento mais tenso para alguns reféns foi quando Willian espalhou um líquido, supostamente gasolina, no interior do ônibus. Em alguns momentos, um isqueiro foi aceso e há relatos de que era emprestado de um passageiro.

Willian não tinha antecedentes criminais. Entrou no ônibus com energéticos, que tomava para “manter a adrenalina”, já que disse aos reféns que estava sem dormir “há seis dias”, uma faca com cerca de 40 cm de comprimento e uma arma, que depois foi confirmada que era de brinquedo.

Ele foi atingido por disparos às 9h02 de terça-feira, depois de três horas e meia de sequestro. Levado com vida para o Hospital Municipal Souza Aguiar, morreu em decorrência de uma parada cardiorrespiratória. Não houve outras vítimas, como ele havia prometido. Seu enterro será custeado pelo governo do estado.

Foto: Ricardo Cassiano/Ag. O Dia/Estadão Conteúdo

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