Início Geral Policial penal transforma 19 anos de vivências no sistema prisional em livro

Policial penal transforma 19 anos de vivências no sistema prisional em livro

Depois de 19 anos trabalhando no sistema prisional de Santa Catarina, o policial penal Vladimir Pacheco Custódio encontrou na literatura uma forma de registrar histórias, experiências e reflexões acumuladas ao longo da carreira. O resultado é o livro “O Homem de Fora das Grades”, obra de ficção inspirada no cotidiano de profissionais que atuam dentro das unidades prisionais.

Vladimir contou detalhes da trajetória profissional e do processo de criação do livro durante participação no Notisul Negócios, podcast do Notisul apresentado por Miguel Herdy.

Na conversa, o policial penal também falou sobre ressocialização, trabalho nas unidades, saúde mental dos servidores, superlotação, dependência química e os desafios enfrentados diariamente por quem trabalha no sistema prisional.

De diário de trabalho a livro

Vladimir começou a trabalhar no sistema prisional em 2008. No início da carreira, passou pela Penitenciária de São Pedro de Alcântara, onde permaneceu até 2014. Atualmente, trabalha em Tubarão.

A ideia de escrever surgiu ainda nos primeiros anos de profissão.

Um colega sugeriu que Vladimir mantivesse um diário com os acontecimentos vividos no trabalho. A intenção era guardar histórias que poderiam, no futuro, ser transformadas em um livro.

O projeto, porém, ficou parado durante anos.

Com o tempo, as experiências acumuladas fizeram com que Vladimir retomasse a ideia. Assim nasceu “O Homem de Fora das Grades”.

A obra utiliza a ficção para contar histórias relacionadas ao universo prisional, incluindo situações vivenciadas pelo próprio autor e por colegas.

A proposta, segundo Vladimir, é apresentar também o lado profissional de quem trabalha nas unidades.

“Palavra e Fuzil” mostra força da negociação

Entre as histórias que fazem parte do livro está “Palavra e Fuzil”.

O capítulo é inspirado em uma situação envolvendo a escolta de um preso em um posto de saúde. Durante o atendimento, criminosos chegaram ao local com a intenção de resgatar o detento.

Segundo o relato apresentado por Vladimir no podcast, os envolvidos estavam armados e havia possibilidade de confronto.

A situação, no entanto, foi resolvida por meio da negociação.

Para o policial penal, o episódio representa uma característica importante da profissão: a necessidade de saber conversar e negociar mesmo em situações de tensão.

“É uma profissão que exige muita habilidade de negociação, principalmente”, afirmou durante a entrevista.

A história também ajuda a explicar o título do capítulo: em determinadas situações, a capacidade de diálogo pode evitar que armas sejam utilizadas.

Trabalho e educação dentro do sistema prisional

Durante a conversa com Miguel Herdy, Vladimir também analisou o funcionamento do sistema prisional catarinense.

Na avaliação do policial penal, Santa Catarina avançou em áreas como trabalho e educação para pessoas privadas de liberdade.

Ele citou a presença de oficinas de trabalho, escolas, professores, psicólogos e assistentes sociais nas unidades.

Para Vladimir, oferecer atividades e oportunidades aos presos pode contribuir para a ressocialização.

O trabalho também pode ajudar a ocupar o tempo dos internos e diminuir a influência de organizações criminosas dentro das unidades, segundo a avaliação apresentada pelo policial.

Apesar dos avanços, ele apontou problemas que ainda fazem parte da rotina, principalmente a superlotação e a falta de efetivo.

Dependência química também é desafio

Outro tema abordado no Notisul Negócios foi a presença de pessoas com dependência química no sistema prisional.

Na avaliação de Vladimir, alguns desses casos poderiam ser direcionados para estruturas especializadas em tratamento e recuperação.

Ele considera que a falta de alternativas para pessoas que enfrentam dependência química pode contribuir para o ciclo de entradas e saídas do sistema prisional.

O policial também defendeu uma análise diferenciada para determinadas situações relacionadas a crimes de menor potencial ofensivo.

“Não adianta só ele ficar entrando e saindo da cadeia sem atingir o foco principal”, afirmou.

A avaliação faz parte da experiência profissional relatada por Vladimir durante a entrevista.

Saúde mental de quem trabalha atrás das grades

A rotina dos policiais penais também foi abordada na conversa.

Vladimir relatou ter acompanhado colegas que enfrentaram problemas relacionados à saúde mental, incluindo casos de suicídio.

Segundo ele, a rotina dentro das unidades pode provocar uma carga emocional que nem sempre é percebida por quem está fora do sistema.

Por isso, considera importante que os próprios profissionais estejam atentos aos colegas.

“Às vezes só no olhar você vê que ele não está bem”, relatou.

O policial também contou que passou por um período difícil durante a carreira e destacou a importância do apoio recebido da família e dos colegas.

Para ele, manter atividades fora do trabalho também ajuda a preservar a saúde emocional.

No caso de Vladimir, a escrita acabou se tornando uma dessas atividades.

Uma oportunidade que mudou a trajetória de um preso

Entre as histórias compartilhadas na entrevista está a de um preso que recebeu uma oportunidade de trabalho dentro da unidade.

O caso aconteceu por volta de 2010.

A mãe do detento procurou um policial penal porque o filho havia recebido uma condenação longa e estava deprimido.

A partir da solicitação, foi verificada a possibilidade de incluir o preso em uma vaga de trabalho.

Ele passou a atuar em uma oficina.

Cerca de duas semanas depois, chamou o policial e informou que havia deixado um presente em seu armário.

Por segurança, o servidor chamou superiores para verificar o conteúdo.

Era uma carta.

Segundo o relato de Vladimir, o preso escreveu que havia pensado em tirar a própria vida antes de receber a oportunidade de trabalhar.

A nova rotina fez com que ele mudasse a maneira de enxergar a própria situação.

Com o passar do tempo, o detento se destacou na oficina e passou a ajudar outros internos.

A história se tornou uma das experiências que Vladimir considera marcantes na carreira.

Novo livro deve contar histórias de mulheres

A experiência com “O Homem de Fora das Grades” já abriu espaço para um novo projeto.

Vladimir pretende escrever “Mulheres de Farda”, obra voltada às mulheres que trabalham no sistema prisional.

A proposta não será restrita às policiais penais.

O autor pretende abordar também profissionais como enfermeiras, assistentes sociais, vigilantes terceirizadas e professoras que atuam nas unidades.

Segundo Vladimir, essas mulheres enfrentam desafios específicos dentro de um ambiente profissional historicamente associado aos homens.

“Eu vou falar também de todo esse pessoal, essas mulheres maravilhosas que trabalham no sistema prisional”, afirmou.

Uma nova forma de olhar para o sistema prisional

Ao transformar experiências profissionais em literatura, Vladimir busca apresentar ao leitor um universo que, muitas vezes, aparece apenas associado a situações de violência ou criminalidade.

“O Homem de Fora das Grades” parte das vivências de quem trabalha diariamente dentro das unidades para abordar relações humanas, decisões, conflitos e histórias de mudança.

A trajetória do policial penal e o processo de criação do livro foram tema da entrevista concedida ao Notisul Negócios, apresentado por Miguel Herdy.

Confira a entrevista completa com Vladimir Pacheco Custódio:

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