quinta-feira, 29 outubro , 2026

Políticos eleitos deveriam ser obrigados a usar o SUS

Você acha justo?

O cidadão acorda às quatro da manhã para pegar ficha. Espera meses por um exame. Leva o filho para consultar em outra cidade porque “no município não tem especialista”. Fica oito horas sentado numa cadeira de plástico para fazer um raio-x. E ainda assim paga, com seus impostos, plano de saúde privado para vereador, deputado, senador e toda a fauna institucional de Brasília.

Eu não acho justo. Acho cruel.

Não se trata de demonizar a política — trata-se de alinhar incentivo com realidade. Hoje, quem decide o orçamento da saúde não depende da saúde pública. Quem vota o financiamento do SUS tem plano premium. Quem define teto de gastos, fila regulada e número de leitos não sabe o que é ouvir: “o sistema está fora do ar”.

É como pedir para alguém reformar uma casa em que ele nunca vai morar.

Imagine por um instante um vereador esperando oito horas por atendimento. Um deputado precisando marcar uma ressonância e recebendo a resposta: “volte em três meses”. Um senador sendo encaminhado para outro município porque não há vaga na UTI local.

Não quero soar excessivamente otimista — longe disso. Mas se um dia essa regra entrasse em vigor, arrisco dizer que o problema da saúde pública seria resolvido em algo entre 12 e 15 minutos.

Meia hora depois da publicação no Diário Oficial, milagrosamente desapareceriam as filas, os hospitais deixariam de ser depósitos de gente e a expressão “não tem médico hoje” seria proibida.

Em menos de uma semana descobriríamos que o problema nunca foi falta de recurso — foi falta de urgência de quem decide.

Porque quando o desconforto é estatística, ele pode esperar.

Quando é pessoal, vira prioridade.

O SUS é, em tese, universal. Mas na prática é segmentado: universal para o povo, opcional para o poder. E aí mora a distorção.

Países que levam serviços públicos a sério fazem exatamente o oposto do que fazemos aqui: colocam a elite política dentro do mesmo sistema que o cidadão comum usa. Quando quem decide depende do sistema, o sistema funciona. Não por altruísmo — mas por autopreservação.

Hoje o político não sente o SUS. Discursa sobre ele em palanque, promete salvá-lo em campanha e, curiosamente, depende de que ele continue precário para seguir prometendo. Porque sistema resolvido não rende slogan; fila interminável rende discurso emocionado.
Imagine o drama eleitoral se a saúde pública funcionasse. Sem corredores lotados para visitas coreografadas. Sem selfies solidárias ao lado de macas improvisadas. Sem o tom grave na propaganda dizendo, com as mãos unidas e a voz embargada: “eu gosto de cuidar de gente”.

Resolver o problema tiraria da política brasileira um dos seus palcos preferidos.

E talvez esse seja o ponto mais incômodo: enquanto o cidadão precisa que o SUS funcione, parte da política precisa que ele falhe — ao menos o suficiente para continuar sendo promessa.

E há algo profundamente simbólico nisso: a política brasileira institucionalizou a blindagem da própria classe. Auxílio isso, verba aquilo. Criou-se uma casta que vive numa realidade paralela financiada por quem enfrenta a realidade concreta.

É curioso: o discurso oficial diz que o SUS é uma conquista civilizatória. Mas os próprios representantes eleitos fazem questão de não utilizá-lo.

Se é tão bom assim, por que não usam?

Talvez porque saibam exatamente como está.

Não estou propondo punição. Estou propondo coerência. Se o serviço público é bom o suficiente para o cidadão, deveria ser bom o suficiente para quem governa.

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