Com status sanitário diferenciado, Santa Catarina lidera na exportação da carne, com presença em mais de 150 países. Após repercussão da “Operação Carne Fraca”, produtores e lideranças buscam proteger o agronegócio local que garante o desenvolvimento da economia no Estado.
Lysiê Santos
Tubarão
É domingo, família reunida, a hora do almoço se aproxima e o cheirinho do churrasco aguça o paladar avisando que a carne está no ponto. Bifes suculentos saem do espeto direto para a mesa proporcionando uma sensação de alegria e satisfação em poder saborear o tracional “churras” em boa companhia.
Assada, cozida, ensopada, grelhada, pode ser no domingo, na segunda… enfim, a proteína animal faz parte da refeição diária de milhares de brasileiros que ultimamente estão atentos à procedência dos alimentos. Os noticiários, nos últimos dias, têm revelado vídeos e imagens de fraudes no processamento da carne que assustam o consumidor.
Apesar de toda a repercussão negativa ocasionada pela “Operação Carne Fraca”, realizada pela Polícia Federal no último dia 17, que apontou adulterações na carne vendida no mercado interno e externo pelas maiores marcas do ramo, o Brasil nas últimas três décadas conquistou a liderança nas exportações do produto. O país é o líder mundial em exportação de carne bovina e de frango, e o quarto exportador de carne suína. Em 2016, as vendas do setor representaram 7,2% do comércio global.
O slogan “carne de qualidade tem nome”, não se aplica apenas à Friboi, da empresa JBS, mas pode ser associado à dedicação dos milhares de pecuaristas anônimos, principalmente os catarinenses que primam pela qualidade do produto, desde o momento do nascimento do animal até o abate e a chegada ao consumidor final.
Pecuarista de Tubarão investe na criação de gado de corte
O proprietário de um supermercado em Tubarão, José Tarciso Machado, percebeu a preocupação do consumidor em relação à procedência da carne e buscava abastecer o açougue da unidade local com carnes in natura produzidas na região. Há cinco anos, o empresário decidiu investir na própria criação de gado de corte.
Na propriedade de cerca de 80 hectares, ele realiza a cria, recria e engorda dos animais de raça europeia, conhecidos por sua carne marmoreada como o Angus e o Brahman. Ele faz um manejo diferenciado e investe em uma alimentação balanceada à base de alto grão. “Temos um alto custo de produção. Após o confinamento, o gado é abatido em um frigorífico de São Ludgero e destinado ao mercado em Tubarão”, afirma o produtor.
Cada etapa é acompanhada para garantir a sanidade. Ao alcançar os 400 a 480 quilos, o animal está pronto para o abate. A propriedade produz cerca de 20 toneladas por mês de carne bovina.
Mercado da Cidade Azul comercializa carne in natura
Após o abate, toda a produção do pecuarista José Machado é destinada ao mercado no bairro Andrino, em Tubarão. O açougue é abastecido com a carne in natura que atrai consumidores do município. O aposentado Edson de Campos, há 23 anos adquire o produto no mesmo mercado por conhecer a procedência. “Temos que cuidar com o que comemos. E sei de onde vem essa carne. Não costumo comprar as embaladas”, relata.
O gerente da unidade alimentícia, Danilo Ramos Domingos, conta que após a repercussão da “Operação Carne Fraca”, muitos consumidores de outros mercados migraram para o local em função da carne. “Estamos sentindo a resistência da população com as carnes embaladas. Nosso foco é oferecer carne in natura de qualidade. Temos uma veterinária que acompanha todo o processo e orienta os funcionários do açougue. Nos preocupamos com a sanidade. Nosso açougue é higienizado três vezes ao dia”, revela o gerente que acompanha as exigências dos clientes.
Santa Catarina é referência em sanidade animal
O modelo catarinense de inspeção sanitária animal é referência de qualidade e segurança. A Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) acompanha bovinos, aves e suínos desde o nascimento dos animais, com a devida supervisão profissional até o abate e a comercialização da carne ao consumidor final.
O gestor do Departamento Regional da Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) de Tubarão, Conrado Medeiros dos Santos, explica que, no caso dos bovinos, todos os animais nascidos em Santa Catarina recebem um brinco que permite a identificação e garante a rastreabilidade do rebanho.
Ele lembra que para que os animais, incluindo frangos e suínos, sejam transportados em Santa Catarina é obrigatória a emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), documento que atesta a sanidade desses animais. No caso das granjas de reprodutores, a GTA deve ser emitida por um veterinário oficial. “Cerca de 600 estabelecimentos estão sob inspeção em Santa Catarina. O inspetor é contratado pela agroindústria por meio de uma empresa credenciada pela Cidasc, enquanto nós fazemos a fiscalização da inspeção”, ressalta. O trabalho nas propriedades rurais também envolve a orientação de produtores e o auxílio dos profissionais da companhia no combate a doenças.
Pecuaristas criam associação em Tubarão
Na região de Tubarão, há cerca de 1.790 produtores de gado de corte cadastrados no órgão. Na semana passada, foi criada a Associação de Pecuaristas de Tubarão e Região, com o intuito de reforçar o desenvolvimento do setor que foi afetado com a repercussão da operação da Polícia Federal que investiga 21 estabelecimentos entre os quase cinco mil existentes. “O impacto inicial foi uma crise de imagem e de confiança, algo extremamente valioso neste mercado. O Estado está trabalhando fortemente para reforçar a confiança dos mercados e consumidores no controle sanitário. Sentiremos alguns reflexos da operação, mas o setor é forte e responsável, e irá recuperar a confiança com transparência e muito esforço”, avalia o coordenador da Cidasc, Conrado Medeiros dos Santos.
Procon orienta consumidor sobre compra de carnes
O Procon esclarece que o consumidor que tiver adquirido carnes (salsichas, salames e linguiças) produzidas e/ou comercializadas por qualquer uma das empresas envolvidas na operação “Carne Fraca” deflagrada pela Polícia Federal, no último dia 17, deve procurar os canais de atendimento (SAC) das respectivas empresas para obter informação clara e precisa sobre a qualidade e a segurança dos produtos, conforme assegura o Art. 6º III do Código de Defesa do Consumidor.
De acordo com a coordenadora do Procon em Laguna, Lúcia Maciel, casos os itens pertençam aos lotes que apresentaram irregularidades, o consumidor poderá optar pela troca do produto ou a devolução do valor pago. “Se não conseguir atendimento adequado ou permanecer com dúvidas, procure o Procon”, alerta.
Ministério da Agricultura atualiza regulamento de inspeção
A atualização do Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal (Riispoa) prevê medidas para garantir a segurança alimentar. O decreto de revisão do Riispoa foi assinado na última semana pelo presidente Michel Temer e o ministro da Agricultura Blairo Maggi. O regulamento substitui o antigo Riispoa, em vigor desde 1952, e engloba todos os tipos de carnes (bovina, suína e de aves), leite, pescado, ovos e mel.
O secretário adjunto da Agricultura e da Pesca de Santa Catarina, Airton Spies, acredita que a atualização do regulamento permitirá um funcionamento mais eficaz do serviço de inspeção de origem animal no país. “A produção ganha mais segurança e mais credibilidade tanto no mercado interno quanto nas exportações”, afirma.
Com a atualização, passa a ser obrigatória a renovação da rotulagem dos produtos de origem animal a cada dez anos, além disso, o Riispoa determina sete tipos de carimbos do Serviço de Inspeção Federal (SIF).
Foto: Lysiê Santos/Notisul
Publicado às 9h30min desta segunda-feira (03/04/2017)

