sábado, 10 outubro , 2026

Quando a Neve Finalmente Chegou ao Meu Coração 

O dia era 20 de julho de 1990. 

Fazia muito frio em Tubarão, e a meteorologia anunciava a previsão de neve — algo de que eu nunca tinha ouvido falar. Eu estava no sexto mês de gravidez do Caio e com uma barriga bastante grande para os padrões das gestantes que conhecia. O médico havia recomendado repouso, mas eu me sentia muito bem e continuava trabalhando sem nenhum problema. 

As notícias sobre a neve na região começaram a chegar, e minha vontade de ver de perto aquele fenômeno me deixou inquieta, quase enlouquecida. A tristeza foi crescendo à medida que ninguém concordava que eu viajasse para Anitápolis ou São Bonifácio, por conta das inúmeras curvas e das estradas ainda sem asfalto naquela época. Cheguei a implorar para meu marido, para meu pai e para meu irmão, mas ninguém quis colocar em risco uma gravidez que já exigia cuidados. 

Essa frustração voltava a cada inverno, a cada notícia de neve na região.

É curioso como, às vezes, tentamos aconselhar e proteger os outros da tristeza ou da frustração, quando nós mesmos carregamos mágoas antigas, feridas que parecem simples, mas que nunca cicatrizam por completo. 

O mês era julho de 2000. 

Com meus dois filhos ainda pequenos, chegou a notícia de uma nevasca prevista para a serra catarinense. Alexandre chegou de viagem e sugeri que subíssemos para ver a neve em São Joaquim — porém, teria que ser uma saída rápida, antes que a serra fosse bloqueada. Ele topou.   

Vesti as crianças com roupas quentes e partimos ao encontro da tão sonhada neve. A temperatura caía à medida que subíamos, e logo percebi que não havia levado roupas suficientes para aquele frio.  

Ao chegarmos a São Joaquim, nos deparamos com a notícia de que um dos dois hotéis estava fechado para reforma e o outro não tinha uma única vaga sequer.  

O frio era intenso e senti vontade de chorar de arrependimento.

Tentamos de todas as formas encontrar abrigo até que o dono de uma residência, que estava ali aguardando a neve, nos ofereceu um quarto. A temperatura chegou a cinco graus negativos — e a neve tão esperada não veio. 

Entramos direto na cozinha, onde um fogão a lenha aquecia o ambiente e nossas esperanças. Fomos acomodados em um quarto com uma cama de casal. Naquele momento, agradeci por meus filhos serem tão pequenos. Tiramos somente os calçados, coloquei-os entre nós para aquecê-los, e dormimos os quatro vestidos com todas as roupas que tínhamos, tremendo de frio, com a sensação de que ele ainda cortava a nossa carne. 

Pela manhã, o gelo havia congelado todas as tubulações da casa — inclusive o carburador do nosso carro. 

Eu só repetia:

“Jesus, o que eu fiz com meus filhos?”

Tentamos descer a serra, mas o gelo bloqueava todas as passagens. Chegamos em casa apenas no final do domingo.  

Prometi a mim mesma que aquele sonho poderia ficar para outra vida. Nesta vida, eu jamais arriscaria minha saúde física ou emocional novamente. Era um sonho de criança, eu sabia. Um sonho que nasceu quando vi um cartão de natal que minha tia trouxera dos Estados Unidos — um cenário branco que permaneceu vivo em minha memória por anos. 

O dia era 18 de fevereiro de 2026. 

Saí da praia, sob uma temperatura de 34 graus, rumo ao aeroporto de Florianópolis, onde o calor também não dava trégua. Embarquei às 22h15 rumo a Munique, na Alemanha, com conexão em Lisboa. 

O dia era 19 de fevereiro de 2026. 

Em Lisboa, enquanto subia a escada do avião que me levaria para Munique, o sol ainda brilhava no céu azul e uma brisa suave tocava meu rosto. Eu só queria chegar ao meu destino para ver minha neta e minha enteada. A viagem transcorreu tranquila; li um livro com serenidade. 

Quando o comandante anunciou que iniciaríamos a descida em 30 minutos, guardei o livro e me preparei. Lá fora era escuro, e eu só conseguia ver a luz vermelha piscando na asa do avião sob minha janela. 

Quando o avião pousou, por volta das 18 horas, eu não podia acreditar no que via. Estava tudo, absolutamente branco. 

Na saída do aeroporto, a neve caía forte. Levantei os olhos para o céu e agradeci por aquela acolhida branca. E quente.

Sim, quente dentro do coração daquela menina que ainda guardava, intacto, o encanto do cartão de natal. 

Capturei tudo o que pude. Fotografei cada detalhe. Permiti que as lágrimas caíssem livremente, no seu gosto e na sua quantidade. Senti uma felicidade imensa diante da surpresa que a natureza havia preparado para mim. 

À noite, tudo era lindo. Mas foi ao amanhecer, quando fui levada à sacada, que meus olhos viram — e minha alma sentiu — o infinito da minha felicidade. 

Meu sonho não tinha apenas se realizado. Ele havia esperado o tempo certo para florescer. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

 

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