sábado, 10 outubro , 2026

QUANDO ADIAR É TAMBÉM UMA FORMA DE SILÊNCIO 

A coluna atrasou.
Fazia tempo que eu não agia assim, mas sou feita de carne e osso — e admitir isso já me exime de uma culpa que, em outros tempos, foi um fardo pesado. Hoje me sinto segura para dizer: procrastinei. 

Conheço muitas pessoas que assumem esse papel. Eu já fui muito pior. Com ajuda da terapia e um exercício diário de vigilância sobre mim mesma, meu nível diminuiu significativamente. Nesta semana, no entanto, tive uma recaída: cinco dias ininterruptos de adiamento. 

Talvez o acúmulo de atividades assumidas, o cansaço, a crise da fibromialgia e a síndrome das pernas inquietas tenham contribuído. Mas sei que bastava pensar em sentar para escrever a crônica para que meus pensamentos entrassem num processo de autossabotagem quase absurdo. 

Também houve o excesso. O excesso de notícias, de indignações, de estímulos.

Um artigo sobre literatura, tempestades de neve nos Estados Unidos, a caminhada de Nikolas, a prisão de um cantor que eu sequer conhecia, meu livro pirateado… e, sobretudo, a morte brutal do cão Orelha, assassinado por adolescentes ricos, na Praia Brava — seguida pelo silêncio cúmplice de pais que preferiram acobertar o crime a ensinar responsabilidade. 

Esse episódio me atingiu profundamente. Talvez porque sempre fui uma mãe exigente. Sempre disse aos meus filhos que erros cometidos por escolha própria exigem consequência, reparação, aprendizado. Talvez porque a covardia dos adultos tenha doído mais do que a crueldade dos jovens. Talvez porque certas violências nos paralisem antes mesmo de encontrarem palavras. 

Essa efervescência me roubou o foco. E, confesso, também a coragem de escrever sobre o que mais me revoltou. 

Lembrei então de como, no passado, eu adiava sistematicamente as tarefas mais difíceis. Fui uma procrastinadora inveterada até as coisas se complicarem de vez. Vivia com a corda no pescoço e, embora nunca tenha deixado de entregar um único trabalho, era na família que o prejuízo aparecia com mais clareza. 

Os TCCs, os artigos e tantas outras exigências da faculdade foram traumáticos. As notas vinham — todas dez —, mas à custa de noites em claro, não apenas pela execução, e sim pelo peso antecipado da procrastinação. 

Procrastinar é deixar para depois algo que poderia ser feito agora. É saber que precisa fazer, mas não querer enfrentar. O problema é que a culpa por não fazer costuma ser mais dolorosa do que simplesmente começar.

Mamãe tinha um ditado simples, desses que atravessam gerações sem precisar de diploma:
“Dois proveitos não cabem num saco só.”
Foco, ela queria dizer. E estava certa. 

Para um procrastinador, foco e organização não são naturais. São construções. Com empenho e perseverança, desenvolvi novas habilidades, instituí uma rotina, criei hábitos que me trouxeram crescimento pessoal e profissional. Meu nível de estresse diminuiu — embora tenha aumentado nesta semana, quando me vi reincidindo. 

Hoje enfrento melhor os desafios, mas isso não me torna imune. 

Algumas estratégias me ajudam: 

  • Começar pelas tarefas mais chatas e difíceis, de preferência na primeira hora do dia; 
  • Abandonar o perfeccionismo: começar mal é melhor do que não começar; 
  • Desligar o celular, silenciar a internet e afastar distrações; 
  • Riscar tarefas concluídas da lista — particularmente, o progresso visível motiva. 

Se nada disso funcionar, talvez seja o caso de reavaliar: você realmente quer fazer isso? É possível delegar? Ou até abrir mão? 

Outro sinal clássico da procrastinação é começar muitas coisas e não concluir nenhuma. Atenção a isso. 

Até certo ponto, adiar é humano. Priorizar é necessário. Mas quando o dia termina e, apesar do cansaço, resta a sensação de vazio e culpa, algo precisa ser revisto. 

Nesta semana, ao deitar a cabeça no travesseiro, eu sabia que havia me sabotado. Sabia também que não escrever sobre o cão Orelha não era falta de indignação — era excesso dela. Procurei, em quase vinte mil fotos, uma imagem dos meus filhos com os muitos pets que já tivemos, algo que ancorasse minha defesa. Não encontrei. 

Escrevo, então, sobre este adiamento.
Porque às vezes a procrastinação não é preguiça: é dor sem forma.
E escrever, mesmo assim, ainda é uma maneira de não compactuar com o silêncio. 

Nos vemos nas próximas linhas! 

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